Existem relações que não pedem definição. Pedem apenas tempo. Em Alguma Coisa Assim, o afeto não se organiza por rótulos, mas por intervalos, reencontros e escolhas sempre adiadas.
Um filme ou uma trilogia?

Alguma Coisa Assim (2017) é, ao mesmo tempo, longa-metragem e costura de dois outros filmes: um curta de 2006 e outro, Sete Anos Depois, de 2013. Juntos, eles formam uma espécie de trilogia afetiva sobre dois personagens que crescem sem se resolver.
Mari e Caio atravessam cidades (São Paulo, Berlim), atravessam o tempo e atravessam a própria dificuldade de definir aquilo que sentem. O filme nasce da própria recusa em ser fixo — assim como suas personagens.
A comparação com Richard Linklater é inevitável. Assim como em Before ou Boyhood, o tempo não é apenas um tema: ele é o próprio dispositivo narrativo.
A origem: adolescência e descoberta

No curta de 2006, Mari é expansiva, inquieta, aberta ao mundo. Caio, contido, inseguro, às voltas com sua sexualidade. O primeiro abalo entre eles surge quando Mari testemunha o primeiro beijo de Caio em outro homem. O desconforto não é apenas moral — é afetivo.
Já em Sete Anos Depois (2013), Caio surge às vésperas do casamento. Mari, agora mais madura, verbaliza sua recusa às estruturas tradicionais:
“É mais fácil e divertido ter um filho com um amigo do que com um marido.”
Mas o olhar dela durante o casamento contradiz o discurso. O corpo diz o que a fala tenta negar.
Berlim, o reencontro e o corpo

No longa de 2017, Caio está em Berlim como médico especialista em embriologia. Mari vive na cidade como arquiteta. O reencontro reativa tudo aquilo que nunca foi totalmente sepultado.
Uma sequência sob efeito de cannabis aproxima os corpos em chave sinestésica. A fotografia e o som criam a sensação de suspensão do mundo. O sexo aqui não é apenas prazer — é experimento.
E é nesse ponto que surge a metáfora que atravessa todo o filme:
O gato de Schrödinger está vivo ou morto?
Enquanto não se olha, tudo permanece possível. Classificar é matar uma das alternativas.
O afeto como experiência limite

O filme desloca então seu eixo para um tema socialmente sensível: o aborto. A discussão não surge como tese, mas como consequência inevitável de uma relação que sempre viveu entre o sim e o não.
A mise-en-scène rima passado e presente: movimentos de câmera sobre a cama de Mari no curta retornam no longa, agora como gesto de tensão. O corpo antes desejado passa a ser também campo de conflito.
Caio, que antes orbitava indeciso, agora contorna Mari quase como predador. O amor que flutuava entra em zona de atrito.
Desconforto

A pergunta que o filme lança não é moral. É ontológica:
É possível viver sem definir?
Mari e Caio atravessam anos tentando sustentar a suspensão como forma de existir. Mas toda suspensão cobra sua fatura. Chega um momento em que até a indeterminação precisa escolher.
No consultório, diante dos comprimidos abortivos, o silêncio vale mais que o discurso. As mãos dadas não são certeza — são apenas tentativa.

Ao final, a pergunta retorna:
O gato está vivo ou morto?
E talvez Alguma Coisa Assim exista exatamente nesse espaço onde a resposta nunca se fixa. Onde o amor não se fecha nem como promessa, nem como fracasso — apenas como processo.
O filme entende algo raro:
às vezes, definir é perder.






