Em Poor Things, nada é exatamente o que parece no primeiro olhar. Nem o tempo. Nem o corpo. Nem a própria ideia de “humanidade”.
O que inquieta de imediato é perceber que aquilo que costumamos usar como linguagem do passado — o preto e branco — aqui serve, paradoxalmente, para narrar o presente. E a cor, ao contrário, aparece como memória.
O tempo como desajuste

À primeira vista, as cenas em preto e branco sugerem flashbacks. Mas logo se revela o truque: aquela é a linha do tempo atual de Bella Baxter. As cenas coloridas pertencem ao que veio antes — à construção daquele corpo.
Até o fim do primeiro ato, o filme nos obriga a reaprender a ler imagens. O passado é vívido. O presente é estranho, austero, quase científico. Lanthimos inverte nossas chaves de leitura para nos lembrar de algo essencial:
o tempo não é só cronologia — é percepção.
A fotografia como consciência

A fotografia em Poor Things é mais do que beleza plástica: ela é pensamento.
Os planos abertos, os enquadramentos calculados e as paletas de cor mudam conforme Bella muda. Nos momentos de descoberta do mundo, predominam cores quentes, saturadas, quase infantis. À medida que a personagem amadurece, as cores esfriam, os contrastes se tornam mais severos, e a câmera passa a olhar o mundo com menos encantamento e mais fricção.
A imagem cresce junto com a consciência.
O olho ‘distorcido’ de Lanthimos

Para quem conhece o cinema de Lanthimos, o uso recorrente da lente “fisheye” é imediatamente reconhecível. Assim como em The Favourite, o diretor recorre à distorção óptica para produzir estranhamento.
Aqui, a lente curva não é apenas estilização: ela simula o olhar de alguém que ainda está aprendendo a ver. O mundo aparece torto porque a consciência ainda é incompleta.
A forma antecede a ideia.
Frankenstein, alma e corpo

Poor Things é uma releitura direta do mito de Frankenstein. Mas enquanto a narrativa clássica questiona os limites éticos da criação científica, Lanthimos desloca a discussão para outro plano:
o que define uma pessoa?
a consciência?
o corpo?
a memória?
a linguagem?
Bella não nasce social. Ela aprende a ser social. Seu desenvolvimento emocional é também um aprendizado de códigos: desejo, culpa, afeto, dominação, autonomia.
A trama expõe, com ironia cruel, o quanto aquilo que chamamos de “natureza humana” é, na verdade, construção cultural.
O feminino como ameaça política

Em determinado momento, Bella passa a compreender as estruturas de poder que organizam o mundo. Seu contato com ideias socialistas não surge como panfleto ideológico — surge como consequência lógica de sua tomada de consciência.
E é justamente aí que a reação de parte do público revela mais do que o filme:
Muitos comentários viram em Poor Things um “filme feminista demais”, “panfletário”, “deturpação de Frankenstein”. A maioria desses discursos carrega misoginia disfarçada de crítica cultural.
É curioso acusar uma releitura de Frankenstein de traição ao espírito original quando se esquece que a obra foi escrita por Mary Shelley aos 18 anos, em pleno século XIX — já como um gesto radical contra os limites morais da ciência e do patriarcado.
O incômodo, no fundo, não é estético. É político.
O riso como desconforto
Poor Things é também uma comédia. E esse talvez seja seu gesto mais perverso: fazer rir enquanto desmonta certezas.
A comédia aqui não é leve. Ela é ácida, estranha, quase constrangedora. O riso vem sempre acompanhado de um pequeno mal-estar.
A plateia ri — e logo se pergunta do que está rindo.

O que Poor Things propõe não é apenas a história de uma mulher que aprende a existir. É a desmontagem da própria ideia de “condição humana” como algo natural e estático.
Bella aprende a falar, a andar, a desejar, a pensar politicamente. Ela aprende, sobretudo, a não aceitar o lugar que tentam lhe impor.
E talvez seja exatamente isso que mais incomode: ver um corpo que se recusa a permanecer aquilo que esperavam que ele fosse.





