Um documentário, assim como qualquer outro filme, é feito de um conjunto de escolhas formais. A maior diferença talvez esteja no fato de que ele lida, tendencialmente, com matérias que estão ou estiveram vivas, seja na forma de um artista, um momento político, uma instituição etc.
Enquanto um filme ficcional precisa, em geral, se esforçar para dar vida a seus personagens e espaços, o trabalho de um documentário está mais em capturar com complexidade elementos de vidas que já estão acontecendo. Por meio de boas perguntas, por exemplo. Elas podem ou não aparecer na forma final, mas ajudam a guiá-la e funcionam como grandes andaimes dessa construção.

É um trabalho e tanto. E, justamente por isso, não surpreende que boa parte dos documentários lançados nos últimos anos tenha algo de fundamentalmente protocolar. Por meio do protocolo, dá-se ao público mais ou menos o que ele espera e, simultaneamente, evita-se lidar com as complexidades do tema. O documentário se torna, nesse sentido, uma fôrma, algo repetível e aplicável a qualquer coisa.
Para olhos e ouvidos mais acostumados a pensar questões de forma, ou ao menos interessados em encontrar alguma coisa minimamente nova, o protocolo incomoda. É um problema muito mais do que uma solução.
Vou mais longe. Um bom documentário, ou seja, um documentário pouco protocolar, pode interessar mesmo a alguém que, a princípio, não esteja interessado em seu tema. Por outro lado, um documentário excessivamente protocolar corre o risco de não satisfazer verdadeiramente nem o entusiasta nem o novato, caso ambos sejam minimamente exigentes.
Digo isso também por experiência própria. Há documentários sobre temas que amo que acho péssimos e documentários sobre assuntos que pouco me interessam que considero muito bons.
O futebol está, digamos, no meio do caminho para mim. Não sou apaixonado pelo esporte e certamente não entendo muito dele, mas gosto. Mais do que gostar pessoalmente, amo pessoas que gostam muito, o que me leva, sempre que possível, a dar uma olhada no que está acontecendo para tentar entender o que as apaixona tanto.

Fui assistir a GRENAL – O Maior Clássico das Américas, portanto, de coração aberto e, ao mesmo tempo, com um pé atrás por causa dessa tendência ao protocolo. O que encontrei foi um filme que carrega, sim, parte desse molde, mas também demonstra um cuidado formal verdadeiro.
Saí mais ou menos satisfeito da experiência e com a sensação de entender um pouco melhor um fenômeno que esteve no entorno da minha vida desde sempre. Sou gaúcho de Porto Alegre, filho de pai gremista que costumava jogar futebol de salão “às ganhas”, como dizemos no Sul, ou seja, a sério. O GRENAL nunca esteve propriamente no centro da minha vida, mas também nunca esteve longe dela.
O peso do protocolo

O aspecto mais protocolar do filme aparece logo na progressão ano a ano, que visita acontecimentos importantes de cima, sem se deter muito em cada um. Isso se torna mais evidente no primeiro terço, dedicado à época mais distante. Pode parecer um caminho inevitável diante de mais de um século de história, mas não creio que seja.
Os momentos mais interessantes surgem quando o filme se permite escutar melhor seus entrevistados. Muitas vezes, isso acontece a partir de boas perguntas ou de um bom ouvido dos realizadores, capazes de dar corda a conversas que nascem daquilo que os próprios personagens têm a dizer.
Um desses momentos é bastante longo. Os entrevistados começam a listar, em sua opinião, os maiores jogadores de cada time da dupla GRENAL. Mas não cada um do seu clube. Cada um fala dos dois.

A pergunta obriga o torcedor a olhar para o rival sem recorrer apenas à identificação automática com o próprio time. Dela emergem complexidades que provavelmente não apareceriam se cada entrevistado fosse chamado apenas a celebrar seus próprios ídolos.
Identidades no banco reserva
Também senti falta de alguns aspectos da história do clássico. E senti falta não como grande conhecedor do tema, mas como alguém que ouviu muito sobre ele de pessoas próximas e que, antes de escrever este texto, procurou entender melhor alguns de seus capítulos.

Em primeiro lugar, o documentário pouco se detém nas origens dos clubes em termos de classe e raça. O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, fundado em 1903, nasce em um contexto fortemente ligado a descendentes de alemães e a setores de maior poder econômico. O Sport Club Internacional, fundado seis anos depois, constrói sua história a partir de uma proposta mais integradora e passa a ser associado, em diferentes momentos, à ideia de “clube do povo”.
Essas relações mudaram ao longo das décadas, evidentemente. O próprio Grêmio tem figuras negras fundamentais em sua história, como Tarciso Flecha Negra, transformado em mascote do clube em 2023. Ainda assim, classe e raça fazem parte da formação dessas identidades e poderiam ampliar aquilo que o documentário entende por ser gremista ou colorado.

Outra coisa importante na história do futebol gaúcho que o documentário não comenta é a Coligay, primeira torcida organizada gay do Brasil, criada por torcedores do Grêmio em 1977. A torcida era liderada por Volmar Santos, então gerente da boate Coliseu, que faleceu mais cedo este ano, aos 77 anos.
Pode-se argumentar que o foco do documentário está nos jogos e não em tudo que se desenvolveu ao redor deles. Mas não creio que isso seja totalmente verdade. GRENAL também se interessa por identidade. Boa parte do filme gira em torno da pergunta sobre o que significa torcer para Grêmio ou Internacional.

Se esse é um dos seus temas, então também importa perguntar quais partes dessa identidade entram no filme e quais ficam de fora. Talvez seja outro nível em que o protocolo vence.
O futebol como narrativa
A conversa com os diretores ajuda a entender de onde vêm alguns dos melhores momentos do documentário.
Tive a oportunidade de conversar com Belisario Franca, Tatiana Sager e Renato Dornelles. Perguntei a Belisario sobre a repetibilidade do gesto documental. Para ser mais específico, quis saber se, depois que se aprende a fazer um documentário, torna-se possível fazer um sobre qualquer coisa ou se cada tema exige uma forma radicalmente diferente.

Tomando a liberdade de parafraseá-lo, ele respondeu que, de certo modo, pode-se trabalhar com qualquer tema, mas cada um chama uma maneira diferente de contar.
No caso específico de GRENAL – O Maior Clássico das Américas, a intenção era levar para a forma do filme a sensação de estar em um estádio. Belisario também falou sobre o quanto seu interesse pelo futebol é, em grande medida, narrativo:
“O futebol é, como narrativa, talvez uma das coisas mais sofisticadas e com mais elementos que a gente tem. O drama, os heróis, a mudança, o clímax e o anticlímax, o plot e o anti-plot… Aquilo é fantástico.”

Acho isso interessantíssimo porque é algo que de fato aparece no documentário. O interesse pelo GRENAL não é apenas temático. Há uma tentativa de encontrar uma linguagem capaz de traduzir para o filme algo da forma social que o clássico assume fora dele. Nos momentos em que essa tentativa funciona, o protocolo perde espaço.
Para além do estádio
Tatiana Sager e Renato Dornelles também lembraram de uma continuidade curiosa com Central, documentário dirigido por ambos em 2017 sobre o Presídio Central de Porto Alegre.
Durante as gravações daquele filme, eram frequentes os presos usando camisas do Grêmio e do Internacional. Eles também contaram que registraram o som do presídio em um dia de GRENAL e que a experiência foi impressionante.
O relato amplia a dimensão do clássico. O futebol aparece dentro de uma instituição que, à primeira vista, nada teria a ver com o estádio, mas onde a identidade gremista e colorada continua operando com enorme intensidade.

Isso ajuda a compreender outra observação feita por Belisario, segundo a qual um de seus grandes temas, atravessando diferentes documentários e assuntos, é a identidade brasileira. Nesse sentido, o GRENAL interessa também como forma de pensar algo do ser gaúcho.
Não vejo essa continuidade entre diferentes filmes dos mesmos realizadores como um problema. Pelo contrário. Para a crítica, interessa perceber o que retorna de uma obra para outra e o que cada novo tema exige que seja transformado.
O desafio está em calibrar essas duas forças. Algumas continuidades podem engessar. Outras ajudam a construir um percurso que ultrapassa cada filme isoladamente.
O espaço do quase
GRENAL – O Maior Clássico das Américas encontra seus melhores momentos quando se afasta da cronologia automática e permite que uma pergunta ou uma memória alterem o caminho previsto. É aí que o filme consegue alcançar algo da complexidade do clássico que pretende retratar.

Os limites aparecem quando o molde volta a assumir o comando, sobretudo ao reduzir partes importantes da história social dos clubes ou ao passar rapidamente por acontecimentos que poderiam abrir outras questões.
Esses limites não apagam os acertos, mas também não precisam ser ignorados. E não dizem respeito apenas a este filme. Fazem parte de uma época em que o protocolo parece imperar de maneira quase imbatível. Ainda bem, contudo, que ainda temos esse “quase”.






