Babilônia’ talvez seja o filme mais despretensioso de Damien Chazelle e, paradoxalmente, o mais ambicioso. Não no sentido da precisão formal de ‘Whiplash’ ou da elegância melancólica de ‘La La Land’, mas no desejo quase infantil de abarcar tudo: o nascimento do cinema, seus excessos, sua violência, sua glória e sua inevitável decadência.

Aqui, Chazelle parece menos interessado em contar uma história perfeitamente calibrada e mais disposto a se jogar no caos. O resultado é um filme irregular, barulhento, exagerado e profundamente apaixonado pela sétima arte.

O cinema sobre ele mesmo

Ambientado na Hollywood do final dos anos 1920, ‘Babilônia’ acompanha a transição do cinema mudo para o sonoro através de personagens que orbitam a indústria. Estrelas em ascensão, ídolos em declínio, técnicos invisíveis e jovens que acreditam que o cinema pode ser uma forma de eternidade.

O filme se estrutura como uma sucessão de festas, sets de filmagem caóticos, quedas morais e tentativas desesperadas de permanecer relevante. Nada é contido. Nada é limpo. Tudo acontece em excesso.

Chazelle constrói um retrato de Hollywood além de uma fábrica de sonhos, como um organismo voraz, capaz de criar mitos e descartá-los com a mesma velocidade.

A comédia do desconforto

A tentativa de comédia em ‘Babilônia’ é assumidamente “pastelão”. Há humor físico, exagero grotesco, situações que beiram o absurdo. Nem sempre funciona. Em alguns momentos, o riso parece deslocado ou excessivo.

Chazelle opta por fazer uma comédia suja, barulhenta, constrangedora. Uma comédia que expõe o ridículo da própria indústria que idolatra.

Homenagem ao cinema

A recepção fria de ‘Babilônia’ por parte do público e da crítica diz muito sobre o próprio filme. Ele não é feito para agradar. É feito para celebrar — ainda que de forma caótica — a história do cinema.

Chazelle constrói um filme que funciona como carta de amor e ao mesmo tempo como autópsia. Ele homenageia o cinema pelo suor, pela sujeira, pela humilhação e pelo sacrifício de quem construiu essa arte antes dela ser respeitável.

Para amantes da sétima arte, isso basta para criar identificação imediata. Chazelle entende que o cinema não nasceu belo, mas sim, caótico.

Atuações e corpos em colapso

Margot Robbie encarna o espírito de uma Hollywood em combustão: carisma, talento e autodestruição convivem no mesmo corpo. Sua personagem existe no limite entre ascensão e queda, sempre um passo antes do colapso.

Brad Pitt interpreta o astro que sente o mundo mudar sem pedir permissão. Seu arco é o mais melancólico do filme, não pela tragédia explícita, mas pela consciência silenciosa de que o tempo não perdoa.

Diego Calva funciona como fio condutor emocional: o olhar encantado que aos poucos se transforma em desencanto. É através dele que o espectador atravessa esse inferno luminoso.

O motor emocional da trilha

A parceria entre Damien Chazelle e Justin Hurwitz é central para a identidade de seus filmes. Desde ‘Whiplash’, passando por ‘La La Land’ e ‘First Man’, Hurwitz construiu trilhas que organizam o ritmo interno das narrativas. Em ‘La La Land’, essa colaboração rendeu dois Oscars, consolidando então essa sintonia criativa.

Em ‘Babilônia’, a música assume um papel quase físico. O jazz frenético e os temas repetitivos empurram as cenas, sustentando a sensação constante de vertigem. A trilha deixa de buscar equilíbrio e passar a acelerar o caos, mantendo o filme em total movimento contínuo.

É o som que costura festas, sets e colapsos, dando unidade a uma obra fragmentada por natureza. Sua música dá unidade a um filme que poderia facilmente se desintegrar sob o próprio peso. Aqui, som e imagem entram em simbiose total.

O tema do descompasso

Babilônia não é um filme equilibrado porque fala de um mundo que nunca foi. O descompasso é parte do discurso. A tentativa de abraçar múltiplos gêneros (drama, comédia, épico, sátira) reflete a própria identidade fragmentada do cinema em seu nascimento.

Chazelle não limita sua narrativa porque não quer reduzir o cinema a uma fórmula. Ele prefere errar pelo excesso a acertar pela contenção. E essa escolha, embora arriscada, é coerente com o que o filme quer ser.

Chazelle e o futuro

Há algo de comovente em perceber que ‘Babilônia’ talvez seja menos sobre o passado do cinema e mais sobre o desejo de pertencer a ele. Chazelle filma como quem ainda olha para trás, admirado pelos gigantes que vieram antes.

Talvez, Chazelle ainda esteja se tornando aquilo que sempre admirou. E isso não diminui seu cinema, pelo contrário. Revela um cineasta em processo, disposto a se expor, a falhar e a tentar de novo. Poucos diretores contemporâneos se permitem isso.

O cinema em seu excesso

‘Babilônia’ pode não ter sido compreendido de imediato. Mas talvez isso faça parte de seu destino. Filmes que celebram o cinema a partir de seu caos raramente são acolhidos de forma unânime.

Chazelle entrega uma obra imperfeita, barulhenta e apaixonada (como o próprio cinema em seus primeiros anos). Porque amar o cinema, às vezes, é aceitar também o seu excesso.

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