Em seu primeiro longa-metragem, o dramaturgo e roteirista Daniel Porto assume também a direção de ‘A Miss’, projeto gestado ao longo de anos e finalmente levado ao cinema. A ambição temática é clara desde a premissa. Porto busca investigar como sonhos interrompidos podem se transformar em imposição dentro do espaço familiar.

Concursos de beleza sempre foram mais do que vitrines de estética. Estas competições organizam desejo, projetam futuro e transformam corpo em espetáculo.

Dentro do eixo desta semana, que atravessa famílias marcadas por expectativa e deslocamento, ‘A Miss’ parecia um terreno fértil. A história de uma mãe que deposita na filha o sonho não realizado de juventude, enquanto o filho revela maior afinidade com esse universo, abre uma fissura interessante para discutir identidade e pertencimento.

A premissa carrega tensão suficiente para sustentar um drama familiar sofisticado. O que se constrói em tela, porém, raramente aprofunda essa fissura.

O centro gravitacional materno

Iêda, interpretada por Helga Nemetik, domina o espaço narrativo. Sua energia é intensa, expansiva, marcada por uma obsessão que atravessa todos os ambientes.

Ao lado dela, Maitê Padilha e Pedro David compõem o núcleo dos filhos atravessados por essa expectativa constante. Alexandre Lino, como Atena, orbita esse centro familiar em permanente estado de fricção.

A personagem da mãe poderia oferecer camadas complexas sobre frustração e repetição de padrões. No entanto, sua trajetória mantém uma linha quase constante de imposição. A intensidade de Iêda não encontra variação significativa ao longo do percurso.

Quando o roteiro decide investigar o passado de Iêda, o gesto surge como tentativa de reorganizar sua imagem, mas chega sem tempo suficiente para amadurecer emocionalmente o conflito.

Identidade explorada em superfície

O deslocamento de Alan para o centro do concurso poderia ser o ponto mais delicado da narrativa.

Existe ali uma oportunidade clara de explorar subjetividade, desejo e conflito interno. Contudo, o filme privilegia o mecanismo da situação sobre o olhar do personagem. Suas motivações e sua relação com o próprio corpo permanecem pouco elaboradas.

Em uma obra que anuncia discutir gênero e pertencimento, essa ausência cria um vazio estrutural que enfraquece o impacto do tema.

Dinâmica acelerada

Os concursos de miss funcionam como motor narrativo, mas aparecem com pouca espessura dramática. Falta construção de atmosfera, progressão de expectativa e densidade nos bastidores.

A dinâmica surge de forma acelerada, quase ilustrativa. A tensão que deveria se acumular entre etapas e resultados não encontra tempo para se desenvolver. Essa fragilidade compromete o impacto do desfecho e dilui a força simbólica do próprio concurso.

Território temático

Quando o universo dos concursos já serviu de lente para observar fragilidades familiares e deslocamentos identitários – como em ‘Pequena Miss Sunshine’, o palco revelou camadas inesperadas de humanidade. Em outras narrativas que envolvem relações entre mãe e filhos, o humor e o melodrama operaram como instrumentos para acessar fissuras mais profundas. Um grande exemplo disso é ‘Tudo Sobre Minha Mãe’.

‘A Miss’ se aproxima desse território temático, mas permanece na superfície do embate. O conflito é exposto, mas raramente atravessado. A tensão aparece, mas não se acumula até se tornar reveladora.

Diálogo visual promissor

Há, no entanto, um cuidado visual perceptível. A fotografia demonstra atenção à composição e à luz, criando momentos de textura e atmosfera que sugerem um filme mais concentrado do que o roteiro permite. A paleta e os enquadramentos apontam para uma intenção estética consistente.

Esse trabalho visual torna-se o elemento mais sólido da obra, apontando para uma maturidade formal que não encontra equivalente pleno na construção dramática.

Entre intenção e execução

‘A Miss’ possui ambição temática ao querer falar sobre família, projeção, identidade e frustração. O material dramático existe, o que falta é maturação.

Algumas cenas pedem respiro e certos conflitos poderiam amadurecer antes de se resolverem. O conjunto transmite a sensação de um projeto que ainda precisava de lapidação antes do corte final.

Dentro do diálogo proposto por esta semana temática, o filme toca em questões potentes, mas não alcança a densidade emocional que elas exigem.

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