O thriller psicológico ‘Mother’s Baby’ acompanha Julia, uma maestra que engravida após um tratamento de fertilidade e vê sua experiência de maternidade atravessada por uma dúvida inquietante: e se o bebê que lhe devolvem após o parto não for realmente seu filho?
Dirigido pela cineasta austríaca Johanna Moder, o filme investiga o impacto emocional do pós-parto e a fragilidade das estruturas de confiança que cercam a maternidade.
Em entrevista ao SUBTXTO, Moder comenta as origens pessoais do projeto, a escolha de trabalhar o tema através do suspense psicológico e a recepção do filme em festivais internacionais.
A entrevista acompanha a crítica publicada esta semana no SUBTXTO, onde analisamos como ‘Mother’s Baby’ transforma a maternidade em um campo de percepção instável, no qual dúvida, isolamento e confiança se reorganizam dentro da vida doméstica.
SUBTXTO – O filme foi descrito como um projeto muito pessoal para você. De onde surgiu a ideia de Mother’s Baby?
Johanna Moder – O nascimento do meu primeiro filho foi decisivo para essa história. Minha principal preocupação era descrever um estado que eu nunca havia experimentado antes. A completa dissolução de tudo o que eu conhecia até então sobre parto e maternidade. Eu senti como se meu mundo tivesse sido virado de cabeça para baixo. Precisei me reconstruir completamente.
A narrativa transita entre drama psicológico e suspense. Quando surgiu a decisão de abordar a história dentro do thriller?
Eu apenas segui uma linha emocional e não pensei muito em gênero ou em qualquer outra coisa específica. Para mim, é uma história de horror, mas não um filme de horror.
O período pós-parto envolve questões intensas de identidade e expectativa social. Como você buscou traduzir essas tensões sem recorrer a clichês?
Minha sensação é de que os temas em torno do parto são ainda mais tabu do que eu imaginava. Isso acaba gerando muitos clichês. E quando existem muitos clichês, fica mais fácil para uma cineasta como eu evitá-los. Porque a realidade costuma ser muito mais brutal, e grande parte dela raramente foi mostrada até agora.

Como foi trabalhar com o elenco do filme?
O mais interessante foi que todos os atores trabalharam juntos como um grande conjunto. Ensaiamos e fizemos leituras coletivas, discutindo o roteiro e os personagens em grupo. Isso criou uma energia muito agradável no set. Cada ator contribuiu e enriqueceu o próprio personagem.
O som e a música desempenham um papel importante no clima do filme. Como vocês trabalharam esses elementos?
Adotamos uma abordagem muito sutil no uso da música, especialmente no desenho de som. Nosso compositor, Diego Ramos Rodriguez, gravou a trilha ao vivo no Synchron Stage, em Viena. Dessa forma conseguimos usar instrumentos específicos dentro do design de som para enfatizar o estado interior de Julia. Talvez o espectador não perceba isso imediatamente, mas a sensação de inquietação permanece.
O filme estreou na Berlinale e passou por diversos festivais. Você percebeu diferenças na recepção do público?
Não notei grandes diferenças entre os países, mas percebi diferenças claras entre a forma como mulheres e homens reagem ao filme e o interpretam.
Você já pensa em novos projetos?
Estou novamente trabalhando com um tema tabu e tentando apresentá-lo de forma acessível. É um desafio extremamente complexo. Estou trabalhando novamente com meu roteirista Arne Kohlweyer, mas acredito que ainda vai levar algum tempo até termos um roteiro.
Com distribuição pela Autoral Filmes, ‘Mother’s Baby’ está em cartaz nos cinemas brasileiros.






