Em ‘Mommy’, Xavier Dolan constrói uma narrativa onde a relação entre mãe e filho se desenvolve como força central da experiência. Diane, interpretada por Anne Dorval, e Steve, vivido por Antoine-Olivier Pilon, existem em um vínculo atravessado por intensidade, onde o afeto se manifesta junto a uma tensão que reorganiza cada encontro.
Desde o início, essa relação se apresenta em movimento. Steve atravessa cada situação com impulsos que alteram o ambiente ao redor, enquanto Diane tenta organizar esse fluxo dentro de um cotidiano que se reconfigura constantemente. O filme acompanha essa convivência sem buscar estabilidade, organizando sua progressão a partir dessas variações.
A relação entre os dois se constrói nos gestos, nas aproximações e nos momentos de ruptura. O que se estabelece ali carrega o peso de um vínculo que se reinventa a cada encontro, sustentado por uma intensidade que atravessa toda a experiência.
Esta crítica contém spoilers sobre o filme.
Aquilo que segue

A fotografia organiza essa experiência a partir do enquadramento em formato 1 por 1. A imagem se fecha, concentra os corpos e reduz o campo de visão, criando um espaço onde tudo acontece em proximidade.
Esse gesto transforma a percepção do espectador. O olhar se fixa nos rostos, nos detalhes, nas reações que surgem sem mediação. A luz, muitas vezes suave, acompanha esse movimento e constrói uma atmosfera que aproxima ainda mais os personagens.
Dentro dessa composição, o espaço deixa de funcionar como cenário e passa a atuar diretamente na experiência emocional. A imagem acompanha a intensidade da relação, criando uma sensação contínua de pressão.
Ritmo, som e impulso

A trilha sonora se insere como elemento central na construção do filme. As músicas entram em momentos específicos, ampliando a intensidade das cenas e criando um diálogo direto com os personagens.
Em diversas passagens, o som conduz o ritmo, estabelecendo uma continuidade que atravessa a imagem. A montagem acompanha esse fluxo, alternando momentos de maior intensidade com instantes em que o tempo se alonga.
Esse uso da música se conecta a uma marca recorrente no cinema de Xavier Dolan, onde a trilha atua como extensão da experiência sensorial. Em ‘Mommy’, essa relação se apresenta de forma ainda mais integrada, organizando a progressão emocional do filme.
Três corpos em circulação

A entrada de Suzanne Clément como Kyla introduz uma nova dinâmica. A presença da personagem reorganiza o espaço entre Diane e Steve, criando intervalos onde a relação encontra outra forma de circulação.
A interação entre os três estabelece momentos em que o tempo se dilata e o vínculo se desenvolve com outra textura. A comunicação de Kyla, marcada por pausas e hesitações, altera o ritmo das cenas e cria uma contraposição à intensidade de Steve.
Essa configuração amplia o alcance do filme, permitindo que a experiência se desenvolva em diferentes camadas dentro de uma mesma estrutura.
A forma em expansão

Em um dos momentos mais emblemáticos ao som de ‘Wonderwall’ de Oasis, a imagem se expande. O gesto parte de Steve e transforma o enquadramento, criando uma abertura que altera a percepção do espaço.
A mudança visual acompanha um deslocamento emocional. O mundo ganha amplitude, o movimento encontra outra escala e a experiência assume uma dimensão mais ampla.
Esse instante sintetiza a relação entre forma e narrativa. A linguagem visual acompanha diretamente o estado dos personagens, criando uma correspondência entre o que se vê e o que se sente.
O retorno ao formato original reinscreve o limite e reforça a estrutura construída ao longo do filme.
O futuro imaginado em ‘faux ending’

A sequência do chamado faux ending se inscreve como uma das imagens centrais de “Mommy”. Sua construção antecede o próprio roteiro. Ao ouvir “Experience”, de Ludovico Einaudi, Xavier Dolan visualiza esse percurso e passa a organizar o filme em torno desse momento.
A montagem acompanha a progressão da música, articulando os planos de acordo com seu ritmo. As imagens se encadeiam em continuidade, conduzindo Steve por uma trajetória que atravessa o tempo e apresenta outro percurso de sua vida.
O personagem aparece em diferentes fases, inserido em situações que constroem uma linha de desenvolvimento marcada por estabilidade e avanço. A luz se intensifica, os enquadramentos ganham amplitude e a imagem se move com uma fluidez que percorre toda a sequência.

No centro desse movimento, Diane observa a trajetória de seu filho. O rosto acompanha a progressão das imagens, registrando cada transformação até o ponto em que essa continuidade revela sua natureza. A percepção se inscreve no olhar e altera a forma como a cena se estabelece.
A sequência atravessa o filme como imagem construída a partir do desejo. Ela introduz uma dimensão onde o vínculo encontra outra forma de duração, expandindo a experiência para além do que se apresenta no presente.
Dentro dessa construção, ‘Mommy’ inscreve uma das suas passagens mais marcantes, articulando som, montagem e imagem em um mesmo movimento.
Onde o quadro já não comporta

Nos momentos finais, ‘Mommy’ leva a relação entre Diane e Steve a um ponto em que mãe e filho já não cabem dentro do enquadramento. A internação transforma o cuidado em um gesto extremo, onde proteger passa por afastar.
No hospital, o corpo de Steve avança contra o espaço enquanto o formato 1:1 mantém tudo comprimido, como um abraço que aperta mais do que acolhe. Essa mesma lógica se prolonga na mensagem de áudio, onde a voz percorre a distância e alcança um lugar que talvez já não exista mais.

Na corrida em direção à janela, o impulso cresce, a luz invade o quadro e o movimento se constrói até o instante em que encontra seu próprio limite, reunindo em um único gesto a intensidade que Xavier Dolan desenvolve ao longo de todo o filme.
Assim, a imagem se encerra carregando a forma dessa relação, onde um filho avança, uma mãe tenta segurar e essa ligação continua existindo justamente ali, no ponto em que já não é mais possível conter.





