Poucas coisas interessam tanto ao cinema de Jorge Furtado quanto pessoas tentando resolver problemas concretos com soluções que rapidamente produzem problemas ainda maiores. Dinheiro costuma estar envolvido. Desejo também. Em ‘Muito Prazer’, os dois aparecem desde cedo, reunidos em um motel decadente onde três jovens sem grandes perspectivas descobrem que a intimidade alheia pode render muito mais do que aquilo que o mercado de trabalho lhes oferece.

É um terreno especialmente confortável para a comédia de Furtado, que retorna ao gênero nos cinemas quase duas décadas depois de ‘Saneamento Básico, o Filme’, lançado em 2007. O intervalo poderia sugerir a recuperação de uma linguagem anterior, mas ‘Muito Prazer’ está interessado no que mudou durante esse período. Trabalho por aplicativo, pornografia online, exposição digital, inteligência artificial e algoritmos integram uma história que reconhece o absurdo contemporâneo sem precisar exagerá-lo muito para encontrar graça.

Rubem (Daniel de Oliveira) trabalha como motorista de aplicativo e recebe como herança do tio o Motel Pérola, um estabelecimento em ruínas e coberto de dívidas. Grace (Luisa Arraes), antiga funcionária que permaneceu morando numa das suítes depois do fechamento, já havia transformado parte daquele espaço em casa. Nalva (Samantha Jones), tão inteligente quanto subaproveitada profissionalmente, completa o trio quando a tentativa de reabrir o motel conduz a um negócio muito mais lucrativo. Eles começam a gravar os clientes, ocultar suas identidades e monetizar os vídeos em plataformas pornográficas.

Humor e precariedade

(Crédito: Fábio Rebelo)

A premissa já seria suficiente para uma sucessão de situações cômicas, e Furtado sabe explorá-las. Seu roteiro é afiadíssimo, rápido nas associações e particularmente bom em fazer uma conversa aparentemente banal avançar por caminhos inesperados. A lógica da screwball comedy, assumida pelo próprio cineasta como referência, aparece nessa velocidade, nas mudanças bruscas de direção e na quantidade de acontecimentos comprimidos dentro da trama. Furtado define seu gosto pela “comédia triste”, aquela em que a gargalhada convive com alguma ponta de melancolia, e vê ‘Muito Prazer’ como uma comédia screwball porque seu roteiro está sempre prestes a mudar de direção.

Essa agilidade poderia muito bem transformar o filme numa coleção de piadas. Grande parte do humor, porém, nasce da precisão com que o roteiro percebe contradições bastante reconhecíveis no presente. Rubem dirige para um aplicativo porque as outras possibilidades profissionais desapareceram. Grace sobrevive de trabalhos ocasionais. Nalva possui uma habilidade tecnológica que o emprego disponível para ela desperdiça. Os três conhecem perfeitamente o discurso contemporâneo da criatividade, da autonomia e da possibilidade de transformar qualquer habilidade em renda. No cotidiano, experimentam sua versão menos sedutora, em que criar alguma coisa tornou-se uma exigência para continuar pagando as contas.

Quando percebem que sexo pode ser transformado em conteúdo, encontram uma economia que funciona com uma eficiência desconhecida pelos trabalhos que exerciam antes. A piada funciona porque Furtado nunca precisa separar sexo de dinheiro. São duas forças que já moviam seu cinema e que agora circulam por aplicativos, bancos de dados, câmeras escondidas e sites capazes de quantificar o desejo.

Arquiteturas do desejo

(Crédito: Fábio Rebelo)

O Motel Pérola é fundamental para que essa ideia ganhe uma dimensão que ultrapassa a trama. Furtado chama o espaço de “personagem fundador” da história e descreve o motel como uma arquitetura criada especificamente para o sexo. Suítes romanas, venezianas, egípcias e outras fantasias tentam converter desejos particulares em ambientes reconhecíveis. O resultado é engraçado porque nenhuma decoração consegue prever completamente aquilo que excita uma pessoa.

Décadas antes de um site perguntar ao usuário qual categoria deseja assistir, o motel já fazia algo parecido usando paredes, espelhos, banheiras e camas redondas. A internet apenas tornou essa classificação infinitamente mais eficiente.

Nessa aproximação entre paredes e tecnologias, ‘Muito Prazer’ alcança uma de suas melhores ideias. O velho motel e o algoritmo pertencem a épocas diferentes, mas compartilham a pretensão de catalogar o desejo humano. Um oferece quartos e o outro, tags. Enquanto o motel ergue cenários para fantasias imaginadas previamente, o algoritmo observa milhões de escolhas e reorganiza aquilo que supõe que queremos. Furtado transforma o encontro dessas duas formas de mediação numa comédia sobre a dificuldade de encaixar seres humanos em categorias tão organizadas quanto aquelas oferecidas por uma tela.

Grace e os limites da representação

(Crédito: Fábio Rebelo)

Grace tem uma posição especialmente interessante dentro dessa discussão. Luisa Arraes interpreta uma mulher que vive cercada por sexo, trabalha num motel, participa da produção de imagens eróticas e não demonstra qualquer incômodo em ser desejada, embora afirme não gostar de transar com outras pessoas.

Existe uma liberdade considerável nessa caracterização. ‘Muito Prazer’ recusa a associação automática entre sensualidade e disponibilidade sexual, permitindo que Grace participe daquele universo sem a obrigação de corresponder aos desejos projetados sobre ela. Arraes entende muito bem essa aparente contradição e faz da personagem uma presença tão divertida quanto imprevisível. Sua relação com a própria imagem parece muito menos conflituosa do que a relação dos outros com ela.

O tratamento dado à sua sexualidade acaba sendo a fragilidade mais evidente do filme. A experiência de Grace se aproxima da assexualidade, ou pelo menos abre espaço para que seja lida a partir dela, mas o roteiro demonstra pouca curiosidade por essa dimensão da personagem. Aquilo que poderia ampliar a discussão do longa sobre as inúmeras formas de desejo acaba tratado como uma característica apresentada, repetida algumas vezes e absorvida pela engrenagem da comédia romântica.

(Crédito: Fábio Rebelo)

O problema chama ainda mais atenção dentro de um filme tão interessado em desmontar categorias sexuais. ‘Muito Prazer’ dedica tempo aos fetiches, à pornografia, às classificações algorítmicas e ao prazer como algo impossível de organizar perfeitamente. Diante de uma personagem cuja relação com o sexo poderia tensionar de maneira ainda mais rica essa necessidade de classificação, o roteiro deixa essa possibilidade em segundo plano. Grace sabe o que quer e o que não quer. O filme demonstra menos interesse em compreender o que isso significa para a forma como ela se relaciona amorosamente.

Essa superficialidade não compromete a força da personagem, em grande parte pelo trabalho de Luisa Arraes. A química com Daniel de Oliveira oferece ao filme uma relação afetiva capaz de conviver com o ritmo acelerado das situações, enquanto Samantha Jones ganha espaço com uma Nalva cuja flexibilidade moral vai se tornando cada vez mais engraçada. O trio funciona porque Furtado não exige deles uma pureza que destruiria a comédia. São pessoas endividadas tomando decisões eticamente indefensáveis e encontrando justificativas suficientemente humanas para continuar.

Consentimento e exploração

(Crédito: Fábio Rebelo)

A câmera escondida nunca é um detalhe inocente. Os personagens sabem que cruzaram uma fronteira jurídica e moral ao registrar clientes sem consentimento, e o roteiro extrai humor dessa tentativa de preservar alguma noção de ética depois que a transgressão já aconteceu. A comédia se alimenta dessa elasticidade moral sem precisar absolvê-los.

A leveza com que ‘Muito Prazer’ circula pela pornografia também encontra um limite delicado. Existe uma indústria construída em torno da transformação do desejo em produto, e essa cadeia não pode ser compreendida apenas pela liberdade oferecida a quem produz conteúdo voluntariamente. Coerção, vulnerabilidade econômica, exploração e circulação de imagens para além do consentimento de quem aparece nelas fazem parte de uma realidade muito menos divertida do que aquela permitida pela comédia.

Reconhecer isso não exige transformar sexo ou pornografia em problema moral. O ponto está no consentimento e nas relações de poder envolvidas em sua produção. Há uma diferença fundamental entre alguém escolher comercializar a própria sexualidade e ter sua imagem, seus limites ou sua necessidade financeira explorados por terceiros. ‘Muito Prazer’ toca nessa fronteira quando seus protagonistas descobrem o quanto a intimidade pode valer depois de convertida em arquivo, produto e audiência, mas prefere não permanecer por muito tempo nas zonas mais violentas desse mercado.

Essa escolha é compreensível dentro de uma comédia que nunca pretende abandonar a leveza, embora revele uma tensão interessante no próprio filme. Furtado é perspicaz ao observar como algoritmos aprendem a classificar fantasias e como a economia digital encontrou novas maneiras de lucrar com elas. A mesma curiosidade poderia alcançar com maior intensidade as pessoas que aparecem nessas imagens, especialmente quando dinheiro, necessidade e consentimento nem sempre se encontram em condições equivalentes.

O absurdo do presente

(Crédito: Fábio Rebelo)

Essa característica recupera algo essencial do melhor cinema de Furtado. Grandes questões chegam disfarçadas de problemas muito concretos. Ninguém acorda disposto a discutir capitalismo de plataforma, privacidade digital ou os limites éticos da inteligência artificial. Rubem precisa pagar dívidas. Grace precisa continuar vivendo. Nalva percebe uma oportunidade. Uma decisão empurra a seguinte e, quando a discussão filosófica finalmente aparece, os personagens já estão ocupados demais tentando escapar das consequências.

Há nisso uma continuidade evidente com ‘O Homem que Copiava’ e ‘Saneamento Básico’. Furtado conhece o potencial cômico de pessoas inteligentes submetidas a circunstâncias materiais ridículas. Seus personagens pensam rápido porque precisam resolver alguma coisa. As ideias ficam absurdas porque as alternativas razoáveis fracassaram anteriormente. A crítica social está inserida nessa cadeia de decisões e não precisa interromper a comédia para anunciar sua importância.

Quase vinte anos depois de sua última comédia para o cinema, Furtado retorna ao gênero diante de um mundo que se tornou especialmente generoso com seu tipo de humor. Algoritmos prometem compreender desejos, aplicativos oferecem independência enquanto trabalhadores acumulam dívidas, imagens podem ser fabricadas ou manipuladas e qualquer fragmento da experiência humana parece disponível para monetização. A realidade já oferece boa parte do absurdo. O roteiro precisa apenas perceber como ele funciona.

Retorno à comédia

(Crédito: Fábio Rebelo)

Essas limitações representam uma parcela pequena de uma comédia que pensa rápido, escreve ainda mais rápido e recupera um tipo de humor brasileiro em que inteligência nunca significa sisudez.

No Motel Pérola, o velho mundo das suítes temáticas se encontra com a economia digital que transforma fantasias em dados. Entre os dois estão pessoas tentando pagar as contas, se apaixonar, descobrir o que desejam e lucrar um pouco antes que alguém descubra o que fizeram.

Jorge Furtado retorna à comédia entendendo que, para falar do presente, não precisava procurar muito longe. Bastava descobrir em qual categoria o algoritmo colocaria tudo isso.

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