Em 15 de setembro, o Cine Walmir Almeida — mais conhecido como ‘Cinema do Centro’ — suspenderá suas atividades. Reaberto em maio de 2025 com recursos da Lei Paulo Gustavo, o espaço acumulou mais de 600 sessões, cerca de 11 mil espectadores e 170 títulos exibidos, sendo 136 internacionais e 36 nacionais, marca que supera até a exigência da Cota de Tela. Para seguir operando, a sala depende de um novo Termo de Cessão pelo município, mecanismo de fomento que sustente programação, manutenção e preços acessíveis.

Dezesseis meses de rotina

Os números reportados, para além do retorno bem-sucedido de uma estrutura física, indicam o que um equipamento cultural alcança quando funciona. Desde que reabriu, foram dezesseis meses que formaram rotina e constituíram público. 

A gestão do cinema, por sua vez, fica a cargo da AVBR Produções, conduzida por Rosângela Rocha e Deyse Rocha, junto à Secretaria Municipal da Cultura. Apesar de algumas ressalvas à gestão atual, é inegável que houve uma premissa que a programação sustentou semana após semana: exibir é uma etapa formativa da cadeia produtiva do audiovisual. Afinal, uma grade que atravessa filmes brasileiros e internacionais em pouco mais de um ano, aberta a parcerias com mostras, cineclubes e ações de extensão universitária, trata o espectador menos como um consumidor do que como uma pessoa em formação.

Um problema de gestão

Público durante uma sessão no Cine Walmir Almeida, em Aracaju. (Crédito: Divulgação / AVBR Produções)

Para remontar a cronologia dos fatos. No dia 17 de julho, a Prefeitura realizou uma escuta pública sobre o projeto e sinalizou que o Termo de Cessão seria encaminhado até agosto, acompanhado de um novo edital de credenciamento. A convocação circulou sobretudo por grupos do próprio setor, e a reunião teve repercussão mínima na imprensa local. Sem cobertura e sem divulgação posterior dos encaminhamentos, prazos, condições de cessão e responsabilidades de cada parte não chegaram ao público que frequenta a sala.

Agosto terminou sem oficialização e publicação do edital. Em nota, a Secretaria afirma que a continuidade e o fortalecimento das atividades permanecem entre as prioridades da gestão municipal e informa que o texto está em análise na Procuradoria-Geral do Município, com expectativa de publicação em setembro.

O ponto administrativo, contudo, é evidente: o vencimento de um termo de cessão é uma data conhecida no momento em que ele é assinado. Não se trata, portanto, de um evento imprevisto, de força maior ou de contingência orçamentária súbita. E, apesar da Prefeitura dispor de instrumentos de transição — termo de cessão provisório, prorrogação excepcional — que existem precisamente para impedir que a tramitação burocrática paralise um serviço, nenhum foi acionado. O que desloca o problema do campo da impossibilidade jurídica para o campo da gestão. Com isso, é lastimável como a prioridade não chegou a ser um dado de rotina de trabalho dentro da pasta.

Essa rotina que não se firmou, por sua vez, incide diretamente sobre aquilo que se vê na cidade. Tomada pelo circuito multiplex, Aracaju possui 28 salas espalhadas por 3 redes e uma sala de rua, o Cine Alquimia. Mas, como observa Fábio Rogério, em texto para o Mangue Jornalismo, o Alquimia opera com alta aderência à programação das grandes redes. Ou seja, das trinta salas da capital, apenas a do ‘Cinema do Centro’ sustenta uma curadoria desviante do padrão de mercado.

Trinta salas e o mapa do país

O caso local reproduz um quadro nacional amplamente documentado. Segundo dados da Ancine referentes a 2024, 88% das salas brasileiras funcionam em shopping centers; das 3.510 em operação, apenas 423 são salas de rua, e seis em cada dez salas novas continuaram sendo inauguradas em centros comerciais. A geografia da exibição no país se organiza em torno do consumo fechado e uma grade que replica a mesma lista de lançamentos de Norte a Sul. Nunca custou tão caro ser globalizado, isn’t that right?

O Cine Walmir Almeida é a única sala de Aracaju com uma curadoria fora do padrão de mercado. (Crédito: Divulgação / AVBR Produções)

Uma sala de rua, por outro lado, produz outro efeito sobre a cidade. Devolve a circulação a pontos em horários nos quais o comércio fecha, cria motivo de deslocamento para quem gostaria de ter uma opção fora do shopping, aproxima o cinema de preços compatíveis com a renda de quem pertence a realidades opostas ao ciclo pretendido pelos elefantes brancos que empilham lojas e mais lojas. Assim como as disputas pelo São Luiz em Recife, pelo Olympia em Belém e pelo Belas Artes em São Paulo, trata-se de uma disputa pela permanência e preservação do espaço urbano. Parte indissociável do quadro que compõe o Centro Cultural de Aracaju, o ‘Cinema do Centro’ ocupa uma posição no desenho da cidade, equipamento público que garante o contato com diferentes linguagens.

Fiar imagens

Dessa forma, a pergunta que a pesquisadora Kênia Freitas instaura como guia para processos curatoriais vem a calhar: “o que há mais para ver?”. Quando transposta à operação de um cinema, ela pressupõe uma configuração material, mobilizada por uma programação que assume riscos independente do retorno do público na semana seguinte, sendo capaz de se sustentar semanalmente e de recolocar filmes das mais variadas que visam, dentre outras propostas, a remediação do olhar.

O ato de olhar, no entanto, é uma operação que exige tempo e reincidência. Quando um filme acaba, outro começa a florescer no seu interior, visto que a imagem se faz no contato com a próxima, e é dessa fricção entre pontos de vista que se constitui o repertório. Um espectador que tem a possibilidade de atravessar 170 títulos em pouco mais de um ano, distribuídos entre cinematografias, durações e regimes narrativos distintos, constrói uma base comparativa que grade nenhuma de multiplex pode oferecer. E, apesar de estarmos localizados em um período histórico de adensamento das visualidades, as telas miniaturizadas que acompanham cotidiano dispersam a cada dia nossa atenção, colocando poucos espaços como a sala de cinema em uma posição capaz de reivindicar uma mediação sensível, que responde ao contexto mencionado com duração e com repetição variada. Infelizmente, é esse hábito que uma suspensão como a do Cinema do Centro interrompe.

O fio interrompido

Apesar de que a preservação e manutenção de um cinema envolva fatores por vezes demasiadamente complexos, como estrutura física, cronograma e critério técnico. O que se prejudica primeiro, e mais rápido, com uma suspensão é o público. Os dezesseis meses de rotina construídos até o momento podem se dispersar em poucas semanas de porta fechada, e reconstruir confiança e frequência custa caro em termos orçamentários.

Fiar imagens é um trabalho contínuo. Interrompido o fio, a retomada não acontece no ponto em que parou, uma vez que, ao refazer a torção, guarda-se a marca da emenda. Enquanto a porta do ‘Cinema do Centro’ permanecer fechada, quem perde é a própria população, que segue sem um espaço capaz de abarcar as sensibilidades de uma formação baseada no encontro, na possibilidade de acessar outras geografias e linguagens. 

Sintomaticamente, caberá a uma sessão do Entreato, cineclube parceiro da sala, encerrar — provisoriamente, espera-se — as atividades nesta segunda-feira (14/09), com Lola Montès (1955), de Max Ophüls. Um filme clássico diante de um grupo de cinéfilos que pulsam, anseiam pelo cinema. Quem sabe uma proposta de recomeço. 

Texto adaptado de um ensaio publicado originalmente na Jovens Persas.

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