No final dos anos 90, duas imagens orbitam o cenário olindense. Enquanto um comercial da rede de fast food do (falecido) palhaço promete “trazer o mundo para o Recife metropolitano”, uma fita VHS guarda o registro de crianças dançando ao ritmo do frevo. Embora partilhem da mesma época e localidade, a justaposição das duas imagens demonstra uma promessa corporativa e o uso da cidade pela população, uma coexistência de dinâmicas, no mínimo, opostas.
O conjunto de cenas, por sua vez, condensa o método pelo qual Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique, remonta um acontecimento importante para o Nordeste e, quem sabe, do mundo. Em meio às tensões culturais da virada do século, o mundo globalizado parece ter encontrado um cenário próprio em Olinda, cidade que, segundo se conta desde então, teria sido a primeira do mundo a fechar uma unidade do McDonald’s.
A montagem como método
Ao recuperar o trajeto do documentário brasileiro, pode-se averiguar uma postura informativa e/ou participativa em grande parte das obras, cuja vocação coloca o cineasta como intérprete da experiência popular e define o uso de entrevistas para ilustrar teses. Contudo, é inegável que certas produções fogem a essa regra, sobretudo quando imbuídas pela despreocupação em “retratar a realidade”. O curta-metragem pernambucano trabalha, certamente, essa segunda faceta.
Em pouco mais de 20 minutos acompanhamos desde contextos globais a disputas políticas locais, destrinchando, à medida que emparelha arquivos, a tal batalha que definiria o cenário político olindense. De um lado, há o material institucional, constituído por reportagens e coberturas das mais diversas modalidades; de outro, há o arquivo doméstico, englobado por aniversários, batizados, formaturas etc. No entanto, longe de tomar o arquivo como prova incontestável, interessam a Henrique as possibilidades discursivas que rondam os registros passados.

Dessa forma, o panorama político importa tanto quanto o fechamento da lanchonete. Para tal, o realizador recua até a disputa entre Luciana Santos e Jacilda Urquiza pela prefeitura em outubro de 2000, vendo na resolução o primeiro passo do que podemos chamar de projeto de soberania nacional. Isso porque a vitória de Santos instalou em Olinda uma administração “comunista” no momento em que o mundo dava por vencida essa polaridade, desencontro sobre o qual o curta reporta a um tópico que, mesmo findada a Guerra Fria e a virada do século, continua aflorando debates. Somada a isso, a geografia do episódio acrescenta outra camada, pois a unidade do McDonald’s em questão foi inaugurada na Avenida José Augusto Moreira, via discreta que corre atrás do antigo Hotel 4 Rodas, fora do circuito turístico, conhecida como ponto de encontro da população LGBTQIA+ da cidade. Daí decorre a ironia, uma vez que uma marca erguida sobre a padronização instalou-se numa área à margem e sob uma administração municipal contrária aos valores que prega.
Contudo, apesar dos dados levantados pelo filme, existem poucos registros do fechamento, lembrado apenas pela população e à beira de se dissolver em folclore. E, por mais que possa parecer uma saturação de elementos trabalhados, o caminho traçado viabiliza um procedimento ensaístico, cuja forma relaciona temporalidades e geografias.
Ao interpor imagens e a narração de Giordano Castro, o filme de Henrique flutua entre o didatismo, o tom militante e a fala do morador que assistiu ao episódio, submetendo o espectador à tarefa de produzir sentido em meio à ironia e ao riso. Embora dispersos, os vestígios assumem uma condição de partida, gesto inerente à advertência feita logo no início, quando a narração anuncia o recuo para traçar o panorama político da “cidade mais importante do mundo”.
Da lenda ao careca dourado
Irrestrito à operação do filme, o gesto de recuo também nasce da necessidade de olhar sob outras perspectivas. Em entrevista à Mídia Ninja, Douglas Henrique fala que a ideia nasceu na Universidade Federal de Pernambuco, onde pôde encontrar a rede que permitiu vasculhar acervos e mobilizar pessoas. Essa relação, por sua vez, remete à lógica do coletivo, de equipes enxutas, tão presente em certa linhagem do cinema brasileiro, atualizada como escolha estética que reúne um grupo de cabeças e mãos para converter visualmente uma ideia.
O reconhecimento veio rápido. No 31º É Tudo Verdade, principal vitrine do documentário no país e porta de entrada para o Oscar, o curta levou o prêmio de Melhor Curta-Metragem Brasileiro, além dos prêmios de montagem, Canal Brasil de Curtas, Mistika e APACI. Antes disso, havia recebido menção honrosa no 27º Festival do Rio e o prêmio de melhor curta documental internacional no 23º Bogoshorts, na Colômbia. De fato ilustre, a qualificação para disputar uma vaga na categoria de Documentário Curta-Metragem da 99ª edição do Oscar decorre dessa trajetória.

Contudo, mais do que os prêmios e a possível indicação, o filme encontrou uma resposta acolhedora do público. Segundo o diretor, o filme alcançou pessoas que costumam passar ao largo desse circuito e gerou engajamento espontâneo, o que se explica em parte pela lenda, que circula em Pernambuco como anedota de orgulho local há mais de duas décadas. E, dada a circulação do filme, a narrativa, para além de devolver ao local retratado algo que já lhe pertencia, agora organiza em imagens um cenário que ressoa diretamente com a proximidade das eleições.
Do mesmo modo, ao lançar uma candidatura para o careca dourado, desloca-se a narrativa mais uma vez. Um curta sobre a derrota simbólica de uma marca estadunidense em solo pernambucano passa a buscar legitimação numa instituição de Hollywood, e o percurso prolonga a operação que o filme realiza com o arquivo: uma imagem produzida num contexto é reapropriada em outro e ganha sentidos que seus autores não controlam. Diante de votantes estrangeiros, porém, o contraste é imediatamente legível entre a cidade histórica e a marca global, talvez até demais. A disputa, por sua vez, vai testar se a Academia reconhece ali uma investigação sobre as imagens de Olinda ou apenas a ironia pitoresca de uma cidade periférica diante da globalização.
O filme iniciou sua campanha pelo Instagram no dia 16 de setembro. A votação preliminar ocorre entre 7 e 11 de dezembro, a shortlist com quinze semifinalistas sai no dia 15 e os indicados serão anunciados em 21 de janeiro de 2027.
De qualquer forma, o filme já sustenta uma aposta importante para o cenário audiovisual. Estejamos atentos.
“O mundo dança conforme a música, e a música agora era o frevo.”




