Em Chocó (2012), de Jhonny Hendrix Hinestroza, o cinema afro-colombiano encontra na experiência cotidiana de uma mulher trabalhadora o centro de uma narrativa profundamente sensorial. A partir da tentativa de Chocó de conseguir um bolo para o aniversário da filha, o filme constrói o retrato íntimo de uma personagem marcada pela pobreza, pelo racismo e pela violência de gênero, preservando a complexidade de sua experiência.
O filme ultrapassa o simples registro da dor e o enquadramento como mero “cinema social”. A experiência de Chocó se constrói pelas escolhas formais, que aproximam o espectador de sua rotina e da maneira como ela atravessa aquele território.

Trabalho inscrito no corpo
Essa construção aparece de maneira particularmente contundente nas sequências em que Chocó trabalha na mineração artesanal de ouro às margens do rio. Os enquadramentos fechados e a câmera em movimento aproximam o espectador da materialidade daquele trabalho. A força dos gestos e o peso do corpo ganham centralidade, enquanto a textura da terra reforça a dimensão física da cena.
O desenho de som amplia essa experiência. O ruído incessante da água se mistura ao trabalho braçal e cria uma atmosfera de repetição e desgaste. Quando esse fluxo recua, aquilo que Chocó não verbaliza ganha espaço diante de um cotidiano marcado pelo patriarcado e pela violência.
A atuação contida de Karent Hinestroza também contribui para construir a subjetividade da protagonista. A luz natural e as cores ligadas à paisagem do Chocó reforçam essa proximidade, enquanto seus gestos preservam a intimidade da personagem sem transformar sua tragédia em espetáculo.
Paisagem que participa da experiência
A paisagem do Chocó participa diretamente da experiência da personagem. A presença constante da água e a materialidade da terra fazem com que corpo e território apareçam intimamente ligados ao trabalho que estrutura seus dias.

É nesse contato que uma premissa aparentemente simples, a busca por um bolo de aniversário, passa a condensar questões históricas e estruturais. O racismo e a desigualdade de gênero atravessam a vida da personagem, enquanto a precariedade econômica se inscreve nos espaços e no ritmo repetitivo de seus dias.
A visibilidade da mulher afro-colombiana surge, assim, tanto de sua centralidade narrativa quanto da maneira como a câmera se aproxima de sua experiência. A violência atravessa essa vida, mas convive com outras dimensões que o filme também procura observar.
Cuidado diante da violência
É significativo que o movimento da narrativa parta de um gesto tão cotidiano quanto tentar conseguir um bolo para a filha. O desejo de oferecer a ela um momento de celebração introduz uma dimensão afetiva que convive com a precariedade.
Ao acompanhar esse esforço, Chocó encontra no cuidado uma dimensão importante da protagonista. As estruturas ao redor restringem suas possibilidades, enquanto o filme se detém também em suas escolhas e na relação que estabelece com os filhos.

É nessa tensão que o longa encontra parte de sua força. A violência organiza muito do mundo ao redor de Chocó sem definir por inteiro a personagem. Jhonny Hendrix constrói sua protagonista a partir da experiência concreta de um corpo inserido naquele território. O cansaço do trabalho e o afeto familiar passam, assim, a existir dentro da mesma imagem, sem que uma dimensão anule a outra.





