Após dias com este texto parado, o vermelho acabou se impondo como caminho de leitura para Saltburn. Rascunhei análises partindo de lugares diferentes, até perceber na recorrência cromática uma chave para acompanhar o desejo e a violência que se espalham pelo filme à medida que Oliver avança sobre aquele universo aristocrático.

Uma das qualidades que mais aprecio na direção de Emerald Fennell está na maneira como a estilização participa da dramaturgia. A cor dialoga com a arquitetura, enquanto a composição revela muito do que seus personagens tentam esconder. Em Saltburn, o vermelho assume uma função particular dentro dessa construção.

Saltburn acompanha Oliver Quick (Barry Keoghan), um jovem deslocado em Oxford, universidade marcada pela presença de uma elite econômica ligada à aristocracia britânica. Diante das hierarquias que definem aquele ambiente, Oliver observa suas regras e aprende a circular por uma bolha que, à primeira vista, parece inacessível.

Oliver e Felix sentados, com Elspeth atrás deles, no ambiente dominado pelo sofá e pela decoração vermelha.
Oliver se aproxima de Felix e começa a circular pelo universo aristocrático dos Catton. A composição e a decoração antecipam a importância assumida pelo vermelho no filme. (Crédito: Divulgação / Amazon MGM Studios)

A cor anuncia a ameaça

O filme assume contornos de um romance gótico moderno. A arquitetura da mansão participa dessa atmosfera opressiva, e Saltburn parece envolver progressivamente aqueles que vivem ali. A casa guarda tradições e excessos de uma aristocracia tão segura de sua posição que já não reconhece as ameaças ao redor.

Oliver usando os adereços de cervo durante a festa de aniversário, cercado pela iluminação vermelha.
Na festa de aniversário de Oliver, a iluminação vermelha, os figurinos e a decoração acentuam o excesso de um ambiente aristocrático próximo do kitsch. (Divulgação / Amazon MGM Studios)

Dentro desse universo, o vermelho reaparece em momentos decisivos da trajetória de Oliver. A cor se associa ao desejo, à traição e, progressivamente, à morte. Sua saturação também reforça o caráter exagerado daquele ambiente aristocrático, próximo do kitsch que alimenta a sátira social do filme.

A opulência material de Saltburn carrega algo de decadente. Os figurinos ostensivos convivem com uma decoração presa a outras épocas, enquanto os hábitos da família revelam um mundo encerrado em suas próprias tradições. Oliver aprende rapidamente a se mover por esse espaço.

O vermelho invade a casa

Um dos primeiros momentos em que a cor assume papel decisivo acontece quando Felix (Jacob Elordi) acolhe Oliver após o suposto falecimento de seu pai. A iluminação avermelhada acompanha o avanço das artimanhas do protagonista e marca sua entrada definitiva naquele espaço, como um parasita que finalmente alcança o organismo do hospedeiro.

Já instalado em Saltburn e cercado pela confiança da família de Felix, Oliver se aproxima de Venetia (Alison Oliver). O vermelho retorna ligado ao desejo e à transgressão, agora através do próprio sangue da personagem.

Depois da morte de Felix, a cor adquire outro peso. As cortinas se fecham e a família permanece reunida à mesa sob uma iluminação vermelha sufocante. Diante deles, a taça de Venetia transborda vinho. O excesso cromático acompanha a desintegração daquele núcleo familiar enquanto a presença de Oliver se consolida dentro da casa.

O percurso chega a Venetia, encontrada posteriormente mergulhada no próprio sangue. A cada reaparição, o vermelho se torna mais difícil de separar da violência ligada à ascensão do protagonista.

As cortinas fechadas, a iluminação sufocante e o vinho levam o vermelho para o centro da desintegração da família Catton. (Chiabella James / Architectural Digest)

Quem percebe o parasita

A relação de Farleigh (Archie Madekwe) com Oliver também participa desse jogo visual. Farleigh percebe mais rapidamente o que existe por trás do comportamento do protagonista e resiste às suas manipulações.

Durante o karaokê, a luz da lareira torna visível o confronto entre Oliver e Farleigh, um dos primeiros personagens a resistir às manipulações do protagonista. (Crédito: Reprodução / Amazon MGM Studios)

Durante o karaokê, a lareira projeta uma iluminação tétrica sobre os dois. O vermelho intensifica o constrangimento público e torna visível a disputa que atravessa a cena.

Essa recorrência cromática é apenas uma das camadas visuais de Saltburn. O filme alterna temperaturas frias e quentes dentro de ambientes formados por referências de diferentes épocas. Nesse cenário, a aristocracia esbanja com a segurança de quem acredita conhecer perfeitamente o próprio mundo.

O vermelho ajuda a tornar visível o avanço de Oliver sobre esse espaço. Funciona quase como as vísceras do longa, sugadas de canudinho por esse parasita enquanto Saltburn se desfaz ao seu redor.

Uma linhagem de imagens

Também é possível aproximar Saltburn de O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), de Yorgos Lanthimos, filme que Emerald Fennell já mencionou diretamente ao falar sobre suas referências para a construção de Saltburn. Nos dois longas, Barry Keoghan interpreta um jovem que entra no convívio de uma família e altera profundamente sua dinâmica até conduzi-la à ruína.

Durante a festa de aniversário, Oliver aparece com adereços de cervo. A imagem aproxima Saltburn de O Sacrifício do Cervo Sagrado, no qual Barry Keoghan interpreta outro jovem que entra no convívio de uma família e altera profundamente sua dinâmica.(Crédito: Divulgação / Amazon MGM Studios)

Essa proximidade ganha uma camada curiosa durante a festa de aniversário de Oliver, quando o personagem aparece com adereços de cervo. A imagem inevitavelmente evoca o filme de Lanthimos, embora não precise ser entendida como uma citação direta daquela obra.

A fotografia de Linus Sandgren é fundamental para esse universo ao propor uma tela mais quadrada com o intuito de construir uma atmosfera clássica e intimista, ao mesmo tempo em que comprime os personagens nos ambientes da mansão.

A composição trabalha ainda com diferentes níveis dentro do quadro e com elementos que interferem no olhar. A sensação recorrente é a de uma casa onde observar e ser observado fazem parte das relações de poder.

O repertório visual se amplia em outras sequências. Na cena da banheira, Oliver aparece submerso na água com a boca coberta de sangue, numa imagem que remete ao vampírico. O jantar à luz de velas e o karaokê diante da lareira seguem outro caminho, aproximando a fotografia de uma tradição pictórica barroca marcada pelo contraste entre luz e sombra e pelo excesso visual.

Quando o vermelho vira sangue

No desfecho, Oliver alcança aquilo que buscou desde o início. Depois da morte dos integrantes da família, ele herda Saltburn e passa a ser o único dono da mansão que antes simbolizava um mundo ao qual parecia não pertencer.

Nesse apogeu, a recorrência cromática encontra sua consequência mais direta. O vermelho, presente desde a entrada de Oliver naquele universo, revela-se definitivamente como sangue. Aquilo que inicialmente poderia parecer parte da exuberância visual da mansão termina inscrito na destruição da família e na tomada daquele espaço pelo protagonista.

Depois da destruição dos Catton, Oliver ocupa sozinho o espaço que antes simbolizava um mundo aparentemente inacessível. (Crédito: Divulgação / Amazon MGM Studios)

Em Saltburn, a cor registra o avanço dessa conquista. Primeiro envolve o desejo, depois anuncia a violência e, ao final, cobre uma aristocracia que só percebe tarde demais que seu mundo já está sendo consumido por dentro.

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