O que acontece com uma conversa quando ela deixa de existir apenas como diálogo escrito e passa a existir diante de uma câmera? No cinema, conversar nunca é somente dizer alguma coisa. Há o modo como alguém escuta, o instante em que desvia os olhos, a pequena hesitação antes de responder, o sorriso que aparece sem que a pessoa perceba, o silêncio que se instala entre uma pergunta e outra. Há também aquilo que permanece fora do campo, aquilo que ouvimos sem necessariamente ver e aquilo que a câmera decide observar enquanto alguém fala.

Em Masculino, Feminino, Jean-Luc Godard parece interessado justamente nesse espaço entre o que é dito e aquilo que acontece enquanto se diz alguma coisa. O filme acompanha Paul e Madeleine, dois jovens que se aproximam e passam a ocupar uma espécie de relação amorosa, mas a história dessa aproximação nunca parece suficiente para explicar tudo o que o filme está fazendo. O interesse de Godard está também nas conversas, nos encontros, nos desvios e, principalmente, na maneira como esses personagens existem diante da câmera.

O rosto de quem escuta

Uma das primeiras conversas mais longas entre Paul, interpretado por Jean-Pierre Léaud, e Madeleine, vivida por Chantal Goya, já apresenta essa maneira de filmar. Paul pergunta sobre amor, relacionamentos, sexo, política e a guerra do Vietnã. Madeleine responde. Seria possível imaginar a cena construída de maneira bastante convencional, alternando planos dos dois personagens conforme cada um fala. Godard, porém, muitas vezes faz o contrário e mantém a câmera diante de um personagem mesmo quando é o outro que está falando.

Essa escolha muda nossa relação com a conversa. Quando Madeleine fala e continuamos olhando para Paul, já não estamos interessados somente na resposta que ela oferece. Passamos a observar Paul enquanto escuta. Seus olhos se movimentam, ele olha para cima ou para baixo, sorri discretamente, parece pensar antes de responder. Pequenas alterações em seu rosto ganham uma importância que talvez não tivessem se o corte nos levasse imediatamente até Madeleine. O personagem em silêncio passa, de certa maneira, a ser tão importante quanto aquele que fala, como se Godard nos lembrasse de que escutar também é uma forma de ação.

A conversa deixa de ser apenas uma troca de informações e passa a existir também como experiência visual. O diálogo continua importante, mas aquilo que a câmera escolhe fazer com ele produz uma segunda camada. Paul se constrói por suas perguntas e respostas, mas também pela maneira como reage às palavras de Madeleine, pelos momentos em que parece não saber exatamente o que dizer e pelas pausas que poderiam desaparecer dentro de uma montagem mais rápida.

Godard não precisa cortar para o rosto de Madeleine para nos dizer que ela está sendo ouvida, nem mostrar a reação de Paul imediatamente depois de cada frase. Ao deixar a câmera permanecer, cria uma espécie de intervalo entre fala e imagem. O espectador precisa completar essa relação. O que ouvimos pertence a um personagem, enquanto o que vemos pode pertencer a outro. A conversa passa a acontecer simultaneamente em dois lugares.

Essa forma de filmar aparece várias vezes em Masculino, Feminino e ajuda a estabelecer uma das características mais interessantes do filme: seus personagens parecem estar sempre sendo descobertos enquanto conversam. Godard não apresenta Paul e Madeleine como figuras inteiramente prontas, explicadas por seus comportamentos ou por uma psicologia previamente definida. Eles se tornam visíveis aos poucos, conforme falam, escutam, hesitam e contradizem aquilo que acabaram de dizer.

Madeleine, Élisabeth e Paul. As conversas revelam os personagens por meio da fala, da escuta e das reações. (Crédito: Reprodução / Argos Films)

A conversa como investigação

Talvez por isso o filme tenha uma relação tão forte com a ideia de investigação. Paul trabalha em um instituto de pesquisas e, em diferentes momentos, sua relação com outras pessoas passa por perguntas, respostas e observações. Ele se aproxima de jovens mulheres que consomem revistas de moda e comportamento e conversa com elas sobre suas vidas, seus hábitos, seus desejos e também sobre política.

Há algo de sociológico nessa estrutura, como se o filme tentasse observar uma determinada juventude francesa e entender o que existe por trás de seus comportamentos cotidianos. A própria forma de Masculino, Feminino parece nascer dessa vontade de observar.

Godard, porém, evita transformar seus personagens em simples objetos de estudo. Parte do interesse do filme está na tensão entre observar e participar. Paul faz perguntas, mas também está implicado naquilo que pergunta. Ao tentar compreender outras pessoas, acaba revelando expectativas, inseguranças e dúvidas próprias.

Madeleine no estúdio de gravação, observada por Paul. O filme articula situações nas quais observar e participar se misturam. (Crédito: Reprodução / Argos Films)

Nesse sentido, a relação com filmes como Chronique d’un été, de Jean Rouch e Edgar Morin, parece importante. O interesse por entrevistas, comportamentos cotidianos e pela observação de uma determinada juventude aproxima Masculino, Feminino de uma tradição documental e sociológica. Godard leva esse procedimento para dentro da ficção e mistura personagens, atores, perguntas, conversas e situações construídas. O filme passa, assim, a testar os limites entre documentário e ficção, observação e encenação.

Uma juventude diante da câmera

Masculino, Feminino não é um filme político apenas porque seus personagens falam sobre política. A guerra do Vietnã, os conflitos sociais, o consumo e as transformações da sociedade francesa atravessam o filme de maneiras diferentes. Às vezes, essas questões estão no centro de uma conversa. Em outras, aparecem quase como ruído de fundo, entram na cena e logo desaparecem. Essa presença irregular talvez diga mais sobre aquele mundo do que se cada uma delas fosse transformada em discurso.

Paul e Madeleine trabalham, consomem, namoram, discutem, leem revistas, escutam música e falam sobre o mundo. A vida íntima e a vida política aparecem misturadas. O amor acontece dentro de uma sociedade marcada por conflitos, assim como uma conversa sobre sexo ou consumo pode carregar questões que ultrapassam aquele encontro específico. Godard parece interessado nessas conexões, na maneira como grandes acontecimentos históricos atravessam pessoas que continuam tentando resolver problemas aparentemente pequenos.

Madeleine, Élisabeth e Paul no cinema. Cultura, consumo, relações amorosas e política compõem o retrato da juventude observado por Godard. (Crédito: Reprodução / Argos Films)

Por isso, as conversas do filme podem soar ao mesmo tempo íntimas e sociológicas. Quando Paul pergunta alguma coisa a Madeleine, não está apenas tentando descobrir quem ela é. A pergunta revela também quem ele é, o que espera de uma resposta e aquilo que ainda não consegue formular diretamente.

A câmera reforça essa sensação porque nem sempre acompanha aquilo que, em uma narrativa tradicional, seria considerado o acontecimento principal. Se Madeleine fala, esperamos vê-la. Se Paul reage, esperamos que o corte nos mostre seu rosto. Godard frequentemente recusa essa lógica e permanece onde está. Ao permanecer, transforma a espera em parte da cena.

O intervalo entre uma frase e outra

É nesse ponto que a duração começa a produzir sentido. Um plano mais longo permite que uma reação aconteça sem precisar ser destacada pela montagem. O espectador percebe um sorriso porque ele simplesmente aparece. Percebe uma hesitação porque ela dura o suficiente para ser notada. Um olhar que poderia parecer insignificante passa a carregar alguma coisa porque a câmera não o interrompe imediatamente.

Godard parece confiar que o espectador pode olhar. Isso é particularmente importante em um filme tão interessado na fala, porque quanto mais os personagens conversam, mais a imagem parece procurar aquilo que a conversa não consegue explicar. As palavras podem dizer uma coisa enquanto o corpo sugere outra. Um personagem pode responder rapidamente e continuar olhando para algum lugar como se ainda estivesse pensando na pergunta anterior. Pode afirmar alguma coisa e, segundos depois, demonstrar uma insegurança que tensiona a própria frase.

Madeleine e Paul dividem a composição com o reflexo dele. A imagem convida o espectador a observar expressões e reações para além das palavras. (Crédito: Reprodução / Argos Films)

Talvez seja por isso que Masculino, Feminino não pareça simplesmente um filme sobre jovens franceses dos anos 1960, embora seja também isso. Existe uma dimensão documental na maneira como Godard observa seus personagens, mas há igualmente uma investigação sobre o próprio cinema. O que significa filmar alguém enquanto essa pessoa fala? O que uma câmera pode descobrir que o diálogo sozinho não consegue mostrar? Godard parece menos interessado em responder definitivamente a essas perguntas do que em deixá-las acontecendo diante da câmera.

Isso também explica por que momentos aparentemente simples podem permanecer na memória. Uma conversa que, em termos narrativos, não precisaria durar tanto adquire outra importância quando Godard decide prolongá-la. Um personagem que poderia ser mostrado apenas enquanto fala passa a existir também enquanto espera, observa ou tenta encontrar uma resposta.

A conversa continua no rosto de quem escuta, no silêncio que vem depois, no olhar que se desvia e na resposta que demora a aparecer. Continua no espaço entre duas pessoas e na decisão da câmera de não cortar. O diálogo escrito pode indicar aquilo que os personagens dizem, mas o cinema encontra outra coisa quando decide observar o intervalo entre uma frase e outra.

É nessa capacidade que Masculino, Feminino encontra uma de suas grandes forças. Paul e Madeleine não são definidos somente pelo que contam sobre si mesmos. Eles também se revelam pela maneira como olham, escutam, hesitam e tentam compreender um ao outro.

Ao manter a câmera diante de um personagem enquanto ouvimos o outro, Godard torna visível aquilo que facilmente desapareceria no corte. A reação deixa de ser uma informação que a montagem precisa entregar e passa a ser algo que o espectador encontra por conta própria.

No fim, talvez seja justamente isso que faça Masculino, Feminino permanecer tão vivo. O filme não parece querer explicar completamente quem são Paul e Madeleine. Prefere colocá-los diante de nós e deixá-los falar. Enquanto eles falam, Godard observa uma juventude atravessada pela política, pelo consumo, pela guerra e pelas novas formas de relacionamento. Acima de tudo, observa o que acontece quando duas pessoas tentam conversar.

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