Neste domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e representantes nas casas legislativas. Em poucas horas, escolhas individuais feitas em todas as regiões do país serão convertidas em um resultado comum.
A urna registra cada voto, mas diz pouco sobre as condições em que essas decisões foram construídas, sobre os lugares de onde partem os eleitores ou sobre as relações que mantêm com o trabalho, a cidade e o Estado. O cinema brasileiro encontra o país em outra escala, detendo-se em vidas, territórios e histórias que existem antes e depois da votação e que dificilmente podem ser resumidos por um resultado eleitoral.
A distância até Brasília

Em A Cidade é uma Só? (2011), de Adirley Queirós, Dildu percorre Ceilândia em uma modesta campanha para deputado distrital. O carro usado na propaganda, os materiais eleitorais e as conversas pelas ruas mostram uma candidatura feita com poucos recursos, enquanto Brasília está a poucos quilômetros dali.
A campanha é colocada ao lado da própria formação de Ceilândia, criada após a remoção de moradores pobres das proximidades do Plano Piloto durante a Campanha de Erradicação de Invasões. Décadas depois, um homem da periferia tenta chegar, pela eleição, às instituições instaladas no centro político do país. A distância entre Ceilândia e Brasília, no filme, não se mede apenas no mapa.

Essa relação entre cidade e experiência assume outra dimensão em Temporada (2018). Juliana (Grace Passô) deixa Itaúna e vai morar em Contagem, onde começa a trabalhar como agente de combate a endemias. As visitas a diferentes bairros colocam diante da câmera casas, ruas, quintais e moradores que ela conhece pouco a pouco enquanto reorganiza a própria vida.
O trabalho permite que Juliana conheça Contagem por dentro. André Novais Oliveira encontra nas conversas e relações da personagem uma cidade distante de qualquer imagem panorâmica ou oficial, construída a partir das pessoas que vivem ali. Se Brasília aparece em A Cidade é uma Só? como centro político diante de uma periferia historicamente afastada, Temporada reduz a escala e encontra uma cidade nas relações que se formam de porta em porta.
Outros pontos de vista sobre o país

Manaus aparece de maneira igualmente particular em A Febre (2019), de Maya Da-Rin. Justino, indígena Desana, trabalha como vigilante no porto de cargas da cidade. Vive ali há décadas, enquanto a filha se prepara para estudar Medicina em Brasília. Nesse período, uma febre misteriosa começa a afetá-lo.
A rotina industrial do porto convive com a experiência de um homem cuja vida em Manaus não apaga a relação com a comunidade que deixou anos antes. Maya Da-Rin evita tratar cidade e floresta como universos opostos e acompanha as diferentes referências que compõem a trajetória de Justino. Vista por ele, Manaus oferece uma perspectiva do Brasil muito diferente daquela projetada a partir de seus centros de decisão.

Em Serras da Desordem (2006), Andrea Tonacci parte de outra trajetória para pensar o território brasileiro. Carapirú, do povo Awá-Guajá, sobrevive ao ataque que dispersa seu grupo e passa cerca de dez anos percorrendo diferentes regiões do país. Depois de ser encontrado no sul da Bahia, é levado pela Funai a Brasília para que sua identidade seja determinada. Lá, reencontra o filho de quem havia sido separado.
Tonacci reconstrói partes dessa história com o próprio Carapirú diante da câmera, combinando lembrança, reencenação e registro documental. Sua trajetória carrega uma história maior de violência contra povos indígenas e das diferentes formas pelas quais o Estado brasileiro entra em suas vidas. O país começa a ser compreendido pela experiência de quem percorreu parte dele depois de ter sua própria comunidade violentamente desfeita.
O Distrito Federal visto das margens

Com Mato Seco em Chamas (2022), Adirley Queirós retorna ao Distrito Federal, desta vez ao lado de Joana Pimenta. No Sol Nascente, Léa, Chitara e outras mulheres encontram petróleo, refinam combustível e montam um negócio clandestino. Prisão, polícia, motociclistas e campanha eleitoral surgem ao redor delas enquanto documentário e invenção se confundem.
As personagens não aparecem apenas como objetos de uma realidade social observada de fora. Elas participam da própria fabulação e transformam suas experiências em matéria de cinema. A proximidade física com Brasília pouco diz sobre a distância existente entre a imagem institucional da capital e a vida filmada no Sol Nascente.
Do carro de campanha de Dildu às visitas de Juliana, do porto de Manaus ao percurso de Carapirú e às gasolineiras do Sol Nascente, esses filmes partem de lugares muito distintos. Nenhum deles pretende representar sozinho uma experiência brasileira total. É precisamente nessa variedade que se levanta uma questão importante diante de uma eleição.
Uma decisão em comum
Uma eleição oferece uma imagem necessária do país: milhões de pessoas, com histórias e condições muito diferentes, participam da mesma decisão coletiva.
Ceilândia, Contagem, Manaus, os caminhos de Carapirú e o Sol Nascente mostram experiências que não representam o país inteiro. Juntas, ajudam a entender a dimensão de uma sociedade que precisa decidir caminhos em comum sem apagar suas diferenças.
O Brasil cabe em uma urna? Não por inteiro. Mas é nela que essas diferenças encontram uma forma comum de participar da escolha sobre quem estará nos centros de decisão.





