Quando assumiu o comando do DCU (DC Universe), James Gunn afirmou que daria liberdade criativa aos diretores para que cada produção desse novo universo de super-heróis tivesse sua própria identidade. Não surpreende, portanto, que James Watkins, conhecido pelo trabalho com o terror, tenha decidido levar o grotesco e o macabro para esse universo.
Assim como em Não Fale o Mal (2024), Watkins nos conduz delicadamente a um assento confortável do qual não queremos sair enquanto vemos a tragédia se desenrolar.
Os elementos que geram tensão são apresentados desde cedo. Sabemos o que provavelmente vai acontecer, sabemos que aquilo será ruim para os personagens e, ainda assim, é difícil desviar o olhar. Essa estrutura não está presente apenas nas cenas de gore e body horror, mas também no roteiro e na maneira como os personagens são desenvolvidos.

A origem de um supervilão
O filme adapta a origem do vilão Cara-de-Barro a partir da versão apresentada em Batman: A Série Animada (1992). Somos apresentados a Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator contido e dedicado que passou a vida tentando sair da periferia de Gotham e conquistar seu lugar ao sol. Basta, porém, um deslize para que tudo aquilo que havia conquistado fosse embora pelo ralo.

O personagem, inicialmente calmo e recatado, tem corpo e mente deteriorados ao longo do filme. Ao final, fica a dúvida se o monstro surgiu durante esse processo ou se aquela sempre foi sua verdadeira face, enquanto Matt Hagen era apenas mais um papel interpretado durante toda a vida.

Cara-de-Barro tampouco demonstra preocupação em inserir conexões constantes ou referências engraçadinhas a outros personagens do novo universo da DC, recurso ao qual o cinema de super-heróis acostumou parte do público. Watkins parece mais interessado em contar uma história que funciona por conta própria, uma vingança dramática atravessada pelo body horror.
Gore e body horror
Fãs do gênero costumam defender que efeitos práticos e uma boa maquiagem provocam mais nojo e repulsa do que a computação gráfica. As duas técnicas estão presentes em Cara-de-Barro e, como esperado, os efeitos práticos ganham destaque diante do CGI.

Isso não significa que os efeitos digitais sejam sempre menos eficientes. Algumas sequências utilizam justamente a artificialidade da computação gráfica para produzir um vale da estranheza igualmente repulsivo.
O body horror concentra-se principalmente na degradação de Matt à medida que sua mutação avança. Cirurgias, tortura e automutilação fazem parte dessa transformação e ajudam a estabelecer o tom mais agressivo do filme.

A classificação indicativa para maiores de 18 anos permite que Watkins leve essas imagens mais longe, embora o longa pudesse aproveitar ainda mais essa liberdade nas cenas em que Matt começa a se vingar violentamente daqueles que considera responsáveis por sua queda.
Filmes protagonizados por vilões frequentemente acabam transformando essas figuras em heróis incompreendidos. Durante boa parte de Cara-de-Barro, parece possível que Matt siga o mesmo caminho. Mas em determinado momento, o próprio filme começa a colocar em dúvida se ainda deveríamos estar torcendo por ele.
Um Dorian Gray invertido
Enquanto o protagonista do romance gótico O Retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde, mantém sua beleza juvenil enquanto sua degradação moral aparece em outra imagem, Matt Hagen segue o caminho inverso.

Em Cara-de-Barro, o corpo do protagonista apodrece e se decompõe à medida que ele cede aos impulsos violentos e à sede de vingança. Aquilo que Dorian consegue esconder torna-se impossível de ocultar em Matt.
O roteiro tem o DNA de Mike Flanagan, que bebe muito na fonte da literatura gótica. Os personagens convivem com angústias profundas e obsessões que acabam contaminando também a ambientação, característica desse estilo literário. Aos poucos, o filme utiliza esses elementos para desenhar uma nova Gotham dentro do universo cinematográfico da DC proposto por James Gunn.
Uma nova Gotham City
A cidade aparece primeiro nos diálogos. Os personagens falam de Gotham quase como se o próprio nome fosse um insulto.

Aos poucos, ela deixa de funcionar apenas como cenário. Gotham parece se espalhar e contaminar aqueles que vivem nela. A fotografia reforça uma cidade grande, industrializada e imponente, ao mesmo tempo em que evidencia sua sujeira e decadência. Essa dualidade combina com a própria tradição do romance gótico que influencia o filme.
Vemos as festas da alta sociedade, a indústria cinematográfica e o luxo. Pouco depois, somos levados para a periferia, e os dois lados parecem fazer parte da mesma paisagem. Uma Gotham não existe sem a outra.
Luzes vermelhas e verdes aparecem repetidamente pela cidade e ajudam a estabelecer o tom visual. O vermelho anuncia o perigo constante, enquanto o verde remete à decomposição que também toma conta do corpo de Matt.
Essa não é a Gotham sombria e opressiva de Batman (2022), de Matt Reeves, nem a cidade altamente urbanizada e moderna da trilogia O Cavaleiro das Trevas (2005–2012), de Christopher Nolan.
A Gotham de Cara-de-Barro parece vil e asquerosa, embora tente preservar as aparências. Há algo errado sob sua superfície, da mesma maneira que o protagonista tenta sustentar uma imagem de si enquanto seu corpo expõe aquilo que já não consegue esconder.
Ao evitar referências constantes a outras produções do mesmo universo narrativo, Cara-de-Barro consegue se sustentar como um filme independente. Há elementos suficientes para dialogar com três tipos de público diferentes: os fãs de filmes de super-herói ansiosos por uma nova Gotham City; os fãs de terror que ganham mais um filme com a assinatura de Watkins; e o público que não é nenhuma das duas opções anteriores recebe um drama de vingança muito satisfatório. E nessa possibilidade de existir para além de sua função dentro de uma franquia que Cara-de-Barro começa a cumprir a promessa de liberdade criativa feita para o novo DCU.




