A hipocrisia de Gleb está presente desde os primeiros minutos de Minotauro. Interpretado por Dmitriy Mazurov, ele vive cercado por dinheiro, influência e relações capazes de proteger seus interesses. O casamento com Galina, vivida por Iris Lebedeva, também participa desse universo em que controle parece depender da capacidade de administrar problemas à distância.

Vencedor do Grand Prix no Festival de Cannes de 2026, Minotauro marca o retorno de Andrey Zvyagintsev ao longa-metragem após nove anos. Coproduzido por França, Letônia e Alemanha, o filme se passa na Rússia de 2022 e retoma elementos de A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, para construir um drama conjugal cercado por corrupção e guerra.

Gleb e Galina em pé, lado a lado, olhando para uma janela em um ambiente de iluminação azulada.
Vencedor do Grand Prix em Cannes, Minotauro marca o retorno de Andrey Zvyagintsev ao longa-metragem. (Crédito: Divulgação)

Uma conversa durante um jantar entre amigos concentra muito do que virá a seguir. Denis fala sobre limpar a própria casa e sobre o contato com a sujeira produzida por quem vive naquele espaço. A observação parece passageira, até que Gleb se vê obrigado, mais adiante, a realizar pessoalmente um trabalho de limpeza em circunstâncias muito mais graves.

A cena encontra humor no completo despreparo do personagem. Gleb sabe negociar, dar ordens e mobilizar contatos, mas diante de panos e produtos domésticos parece alguém colocado fora de seu campo de domínio. A ironia nasce desse contraste sem diminuir a gravidade do momento.

Gleb observa Galina do outro lado de uma mesa durante uma refeição.
As conversas domésticas revelam progressivamente as fissuras do casamento de Gleb e Galina. (Crédito: Divulgação)

Cercado pelos próprios espaços

A câmera de Zvyagintsev e Mikhail Krichman observa Gleb com uma distância coerente com o personagem. Os enquadramentos largos mantêm os ambientes visíveis durante conversas tensas, fazendo com que paredes, vidros e corredores participem do conflito.

Os travellings reforçam essa sensação de observação contínua. A câmera percorre os espaços sem se restringir ao rosto de quem fala e permite que o espectador examine o ambiente enquanto acompanha os personagens. Em várias sequências, o quadro parece guardar informações além da ação principal.

Galina aparece desfocada em primeiro plano enquanto Gleb permanece afastado, junto à bancada de uma cozinha ampla.
Os enquadramentos largos mantêm os ambientes visíveis durante as conversas tensas. (Crédito: Divulgação)

A casa de Gleb expressa riqueza pela amplitude e pela organização. Essa ordem também acentua a distância entre os membros da família. As discussões conjugais ganham intensidade porque acontecem dentro de espaços cuidadosamente controlados, enquanto o relacionamento revela fissuras que aquela arquitetura não consegue esconder.

Os diálogos entre Gleb e Galina estão entre os melhores momentos do filme. A tensão cresce pela duração das conversas e pela maneira como cada frase altera a relação entre os dois. Zvyagintsev confia no tempo da cena e na presença dos atores para tornar o conflito doméstico mais incômodo do que muitos dos acontecimentos externos.

Galina gesticula diante de um espelho, com seu rosto e suas mãos reproduzidos em diferentes reflexos.
A duração das conversas e a presença dos atores intensificam o conflito doméstico. (Crédito: Divulgação)

Limpar a própria sujeira

A sequência da limpeza desloca Gleb para uma atividade simples que ele claramente não domina. Existe uma ironia forte em ver um homem acostumado a comandar outras pessoas tentando descobrir como devolver um espaço à aparência de normalidade.

O interesse está também na inversão criada pelo filme. Um homem habituado a fazer outras pessoas executarem tarefas precisa agir com as próprias mãos e encarar vestígios que não podem ser resolvidos por uma ligação telefônica.

Gleb observa o próprio reflexo no espelho de um banheiro, com uma toalha vermelha pendurada ao fundo.
Gleb precisa encarar pessoalmente aquilo que seu dinheiro e sua influência costumavam manter à distância. (Crédito: Divulgação)

A sequência materializa aquilo que sua posição social normalmente mantém distante dele: as consequências concretas de suas decisões. Gleb consegue administrar crises porque dinheiro e influência funcionam como extensões de seu poder. Quando esses recursos perdem utilidade, sobra o corpo diante daquilo que precisa ser apagado.

Essa lógica atravessa sua vida privada e alcança os negócios. Pessoas entram nesse cálculo conforme aquilo que podem oferecer ou aquilo que ele precisa evitar.

Os 14

É nesse ponto que a guerra se conecta de maneira mais convincente à trajetória de Gleb. Ele recebe a ordem de fornecer 14 trabalhadores para a mobilização militar, número que remete diretamente ao mito do Minotauro, no qual jovens eram enviados como sacrifício ao monstro.

Gleb procura preservar funcionários considerados importantes para a empresa e contrata novos trabalhadores que acabam direcionados ao recrutamento. O paralelo ganha concretude porque o número não é apenas uma referência mitológica, começa a definir quem será sacrificado para manter a estrutura da empresa funcionando.

Essa engrenagem aproxima corrupção e privilégio de maneira bastante direta. Gleb não vai para a guerra. Ele participa do processo que decide quem pode ir em seu lugar.

Gleb aparece sozinho em uma floresta escura, com o rosto iluminado por uma luz azulada.
Gleb preserva a própria posição enquanto decide quais trabalhadores serão enviados para a mobilização militar. (Crédito: Divulgação)

Nos momentos em que o contexto bélico interfere diretamente nessas decisões, o filme encontra uma conexão forte entre vida privada e situação política. A maneira como ele administra os trabalhadores enviados para o front segue a mesma lógica que orienta outras escolhas do personagem.

A integração perde precisão em passagens mais isoladas. Cartazes incentivando o alistamento e referências espalhadas pelo cenário parecem destinados a lembrar o espectador da guerra, mas chegam sem grande efeito sobre aquilo que está acontecendo na narrativa naquele instante.

Isso enfraquece parte da ambição alegórica de Minotauro. O drama conjugal possui densidade suficiente para sustentar a crítica à hipocrisia de Gleb, enquanto o contexto político ganha interesse quando interfere efetivamente em suas escolhas.

O céu cinza

O final deixa um gosto amargo. A família viaja de avião enquanto observa um céu tomado por nuvens acinzentadas. A imagem pode lembrar fumaça bélica e aproximar visualmente o conforto daquela cabine de uma guerra que durante boa parte do filme esteve fora do campo imediato da família.

Gleb atravessa esse plano protegido pelo dinheiro e pela posição que lhe permitiram administrar sucessivas crises. A tranquilidade aparente da viagem contrasta com tudo o que ficou pelo caminho, embora a ligação entre drama doméstico e contexto bélico tenha sido irregular ao longo do filme.

Gleb encara algo fora do quadro, com expressão tensa, dentro de uma casa iluminada por tons frios.
A limpeza expõe um homem poderoso que sabe administrar pessoas, mas não os rastros produzidos por suas decisões. (Crédito: Divulgação)

Essa irregularidade também limita o impacto do encerramento. A relação com a guerra é muito mais expressiva quando interfere diretamente nas escolhas de Gleb, como acontece com os 14 trabalhadores enviados para a mobilização. Em outras passagens, os símbolos do conflito aparecem soltos demais para alcançar a mesma precisão.

A cena da limpeza acaba dizendo mais sobre o personagem do que várias dessas referências. Ali, sua posição social perde utilidade por alguns minutos e o próprio Gleb precisa executar aquilo que normalmente seria delegado. A câmera observa seu desajeito e encontra uma ironia amarga num homem poderoso que parece saber lidar melhor com pessoas do que com os rastros que produz.

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