Hideous é um experimento audiovisual construído inteiramente a partir da metáfora. Mas não de uma metáfora vaga ou ornamental. Tudo aqui é simbólico e, ao mesmo tempo, dolorosamente concreto.
O que se vê é um corpo atravessado por memória, desejo, medo, aceitação e doença. O que se acompanha é a transformação lenta de um sujeito que aprende a existir convivendo com suas próprias cicatrizes sem apagá-las e sem romantizá-las.
O passado como assombração

No primeiro ato, somos apresentados ao artista vivido por Oliver Sim já em confronto com o próprio passado. Não como lembrança nostálgica, mas como fantasma ativo, insistente. A infância surge marcada pela solidão, pelo deslocamento e por uma sensação constante de inadequação.
Os monstros que cercam essa criança são literais — criaturas grotescas, fantásticas —, mas funcionam sobretudo como projeções psicológicas. Eles materializam o terror de existir quando ainda não há linguagem para nomear o que se é. Quando o corpo já sente, mas a consciência ainda não compreende.
É difícil não reconhecer algo de profundamente humano nesse gesto. Hideous toca especialmente aqueles que precisaram aprender a sobreviver cedo demais, quando o mundo ainda não oferecia abrigo simbólico.
Juventude, desejo e pertencimento provisório

Com a chegada da juventude, a linguagem do filme se transforma. A sombra cede espaço à descoberta. O medo começa a dividir território com o desejo. O corpo passa a experimentar o toque, a curiosidade, a possibilidade de pertencimento.
O processo de aceitação da sexualidade é filmado com delicadeza e sensorialidade. Há beleza nos encontros, há luz na experiência de ser visto. Mas essa beleza nunca é plena. Ela carrega, desde o início, o aviso de que algo pode se romper.
Hideous compreende que, para corpos dissidentes, o prazer quase sempre convive com a antecipação da perda.
Quando o corpo se torna o monstro

No ponto de virada entre o segundo e o terceiro ato, a beleza construída entra em colapso. O protagonista deixa de enfrentar apenas monstros externos. Ele passa a encarnar o próprio monstro.
Aquilo que na infância era medo se transforma, na vida adulta, em identidade marcada pelo estigma. O corpo passa a ser nomeado, rotulado e observado como ameaça.
O audiovisual expõe como a sociedade fabrica seus monstros ao decidir quais corpos merecem cuidado e quais devem ser temidos. O terror deixa de ser fantástico. Ele se torna social.
HIV, estigma e sobrevivência

O desfecho de Hideous se ancora em um de seus pontos mais sensíveis: a convivência com o HIV. Não como punição moral. Não como sentença narrativa. Mas como condição de vida.
O artista agora aprende a existir sob uma nova camada de vulnerabilidade. Os obstáculos não desaparecem. O estigma não se dissolve. Mas o filme se recusa a associar essa experiência à ideia de fim. O que se propõe é a continuidade frágil, difícil, mas possível.
Hideous não romantiza a dor. Ele humaniza a travessia.
A voz como abrigo

O encerramento com o “anjo da guarda” cantando estabelece um dos momentos mais comoventes da obra. A cena dialoga diretamente com narrativas musicais LGBTQIA+ atravessadas pela melancolia, evocando o timbre quase celestial de Morrissey em ‘The Queen Is Dead’.
Aqui, a voz surge como último refúgio. Quando o corpo falha, quando a linguagem falha, resta cantar. A música deixa de ser trilha para se tornar confissão, terapia e forma de sobrevivência.
Oliver Sim: identidade em exposição
Para quem acompanha Oliver Sim desde o The xx, há algo de profundamente poderoso em vê-lo assumir esse protagonismo tão íntimo e exposto. Hideous também é o retrato de um artista se reconstruindo fora da zona de conforto.
Sua fala ao Interludes, da Apple Music, sintetiza esse momento de travessia:
“Cada um de nós três está construindo algo tão único ao trilhar seus próprios caminhos. Mas, confesso que estou bem ansioso para saber o que o The xx vai se tornar quando esses três pontos se cruzarem novamente.”
Há algo de coerente nessa espera. Não como retorno ao que era, mas como possibilidade de reencontro transformado.

Hideous é um filme sobre monstros. Mas, sobretudo, é um filme sobre o que fazemos quando descobrimos que o monstro mora em nós. Esta experiência audiovisual afirma que seguir vivo — mesmo sendo chamado de “hideous” — já é um gesto de resistência.





