Vi esse filme alguns anos atrás e não saberia recontar o enredo sem trapacear, mas lembro da sensação de sair daquele cinema numa sexta-feira de inverno. Era agosto ou julho, não importa muito. Fazia um frio gostoso, daqueles que jogam as flores dos ipês no chão, criando um tapete natural na cidade, e convidam a um café ou vinho tinto, tanto faz. Decidi ir andando para casa, sem fones, nem nada, caminhando e olhando o rosto dos jovens apaixonados nos bancos da praça, escutando trechos de suas declarações de amor, conversas aleatórias em meio à fumaça de cigarros finos, cachorros brincando e homens e mulheres rindo, vivendo. Isso: eles tinham vida. Eu, ali me sentia apenas um observador. Talvez eu tenha me sentido assim a vida toda. Nossas lembranças não condizem tanto com a realidade, então pode ser que eu esteja enfeitando um pouco aquele dia. É a escolha que faço, completamente deliberada. A vida sem um pouco de fantasia seria tão chata.

As Oito Montanhas. Título estranho para um filme. Se bem que me deixou curioso: quais eram essas montanhas? Eu, crescido em meio a tantas, dentro de um pequeno vale incrustado por tantas nunca parei para nomeá-las. Um mal da cidade, penso. Perdemos a conectividade com a natureza e ela se tornou objeto, mas essa é outra história. Aquele filme, ou mais especificamente aquela cena, me fez enxergar que eu também estava vivo, profundamente solitário, e que construímos santuários de permanência contra a erosão do tempo; porque o tempo sempre passa e, como numa casa em chamas, estamos todos inevitavelmente voltando para onde ficaram nossos amores e nossas tristezas.

Pequenas figuras caminham por uma encosta próxima a uma cabana, enquanto uma nuvem espessa encobre as montanhas.
As montanhas guardam os encontros, as separações e os retornos de Pietro e Bruno. (Crédito: Divulgação)

Me volta sempre à memória, quando subo as montanhas ou olho o fogo, essa cena: fragmentos de um filme visto em um festival praticamente vazio em 2023, dois homens em volta de uma fogueira e um deles pedindo ao outro que ficasse parado. A cena é carregada de um homoerotismo melancólico, desinibido de todo o mundo. Ali não há responsabilidade, família, contas, mulheres. Só existem dois homens adultos. “Eu viveria assim para sempre”, suspira Pietro. “Não vou a lugar nenhum”, responde Bruno, com uma intensidade e um olhar que a câmera faz questão de que você perceba. Existe algo a mais ali, além dos dois barbudos em meio ao idílio dos Alpes. Você quase respira junto com eles, o fogo subindo e estalando enquanto a plateia fica suspensa, aguardando o depois. Algo que nunca vem. Esse não é um filme sobre isso.

A fogueira que ficou

A filmagem desse momento é quase toda escuridão. Vê-se apenas o que a chama deixa ver. A direção de fotografia de Ruben Impens, de Alabama Monroe e Querido Menino, você apenas contempla. Sim, essa é a palavra: contemplação. Meio rosto, uma mão, um perfil que sempre some quando o fogo baixa. Você sente o gosto daquele vinho na boca. Estamos lá e aqui, tanto faz, eles já nos captaram ali. As montanhas estão fora do quadro que nos deixam ver.

Em certo momento, um deles diz: “peccato che è finita l’estate”. Que pena que o verão acabou. A frase não tem nada de meteorológica; é um aviso de prazo para nós, de que o tempo que vivemos e aproveitamos se foi. No inverno estamos todos sozinhos. Mas, quase como se nós, espectadores, fôssemos o outro protagonista, ele responde chamando aquele lugar de “casa nostra”, uma confiança silenciosa. Dois homens decidindo, no escuro, no meio do nada, que aquele pedaço de chão é deles, que ali sempre seria verão, porque o tempo nas montanhas não é o tempo do asfalto.

Bruno e Pietro trabalham sobre o telhado de uma pequena casa de pedra, cercada por montanhas cobertas pela neblina.
Pietro e Bruno constroem uma casa nas montanhas, o espaço que os dois reconhecem como “casa nostra”. (Crédito: Divulgação)

O que segura a cena na minha memória é o intervalo entre as falas, ocupado pelas faíscas que estalam e tomam o silêncio inteiro. Antecipamos em nossa mente as respostas, criamos nosso próprio roteiro imaginário do que poderia ter sido para eles e, bem, para nós. É esse silêncio confortável, de gente que já dividiu frio suficiente, que autoriza a pergunta seguinte.

Pietro (Luca Marinelli, de Martin Eden, A Grande Beleza, Mussolini: O Filho do Século e tantos grandes filmes italianos dos últimos quinze anos) segura as palavras no ar, chamuscando seus olhos, enquanto brinca que, para ele, aquilo era o sonho de todo homem. Bruno (Alessandro Borghi, de O Primeiro Rei: O Nascimento de um Império e Supersexy) em um quadro perfeito da direção, olha acuado, como uma criança de quem acabaram de descobrir os segredos mais profundos. “Sou montanheiro”, responde. “Estarei sempre aqui.” Aqui. Aqui era onde ele dizia e é onde nós também desejamos estar, presos nesse espaço de fragmentos, deixando que, naquele exato momento, a música de Daniel Norgren — onde você vai ver “Alabursy” ficar tão bem em um filme italiano, ou em qualquer filme? —, o ar e as falas fossem a gente ali, apenas para conseguir escapar por um instante de nossas vidas solitárias.

Mas não nos enganemos: eles também estão sozinhos. Apenas a montanha, nesse filme, tem companhia. A fotografia faz com que, em algum momento, aquele fogo não esteja mais na tela, e sim em nós.

O que o silêncio guarda

Voltei essa parte quatro, dez vezes. A montagem é tão potente que desconcerta, alternando lentamente os dois perfis, meio apagados, demorando no olhar de quem observa o amigo com a mesma reverência com que se olha uma encosta. A luz indireta, as sombras quentes em meio àquele gelo todo que aquecem tantos de nós. É um cinema lento, como a vida nas montanhas. O abismo nos encara de volta. Eu me vejo em você. Quer coisa mais poética do que isso?

Esse filme também nunca me chega sozinho. É impossível não pensar em O Segredo de Brokeback Mountain, que é o parente óbvio e, ao mesmo tempo, o errado, porque aqui a amizade ganha a complexidade que de costume se reserva ao desejo. Posso listar uma imensidão de outros filmes que vêm à mente: Na Natureza Selvagem ou Martin Eden. Voltamos a Jack London, o sujeito que se retira e o sujeito que quer escrever, que são exatamente os dois homens daquela fogueira.

Posso voltar àquela cabana nas montanhas: neve, barba, vinho, cedro com verbena, For Emma, Forever Ago. Posso atravessar Minas e cantar que eu guardo a voz nas estradas. Posso colocar Milton ou Tim. Posso e devo subir a montanha. Mas não faço. Assim como Pietro, eu apenas espero, e os quinze viram vinte, que viram trinta, e você é um homem de trinta e poucos anos ainda em busca de qualquer coisa que lembre ao menos um pouco aquela sensação dos dois. A cena continua com um dos dois — não lembro se o escritor ou o montanheiro — listando o que importa na vida: um bom fogo, um bom amigo, vinho, peixe, algumas montanhas. Lista ridícula e completa. Eu faria a mesma, quem não? Ele interrompe a própria frase e pede: “Fermo così. Non ti muovere”. Fica assim, não se mexe.

Dá para sentir a tensão ali. Você, que, como eu, já assistiu a filmes e filmes queer, espera como um lobo faminto a cena seguinte: dois homens se entregando um ao outro, entrando naquela caverna escura que é a alma humana e deixando que apenas o prazer reine. Mas não é esse tipo de filme. É um filme sobre amizade, e ela fica ali, suspensa, imóvel. Talvez por isso a cena tenha tanta intensidade: o cinema raramente oferece às amizades masculinas esse grau de intimidade sem imediatamente convertê-las em outra coisa. Homens adultos aprendem cedo a lidar com a solidão, muitas vezes como se ela fosse uma forma de independência.

Pietro e Bruno nadam afastados um do outro em um lago de águas verdes, vistos de cima.
As Oito Montanhas oferece à amizade masculina um grau de intimidade que o cinema costuma reservar ao desejo. (Crédito: Divulgação)

Voltar diferente

E é aqui que a coisa se complica, porque a cena nunca é a mesma e não é ela que muda. Da última vez, o som das faíscas me pareceu outro, mais seco, quase incômodo, e é o mesmo som, a mesma mixagem, o mesmo estalo na mesma marca de tempo. Ninguém mexeu em nada. Na primeira sessão, aquele estalo era companhia, o barulho que o silêncio faz quando tem alguém do lado. Eu ouvia lenha queimando e entendia calor, entendia ficar.

Agora ouço madeira acabando, contagem regressiva, o fogo comendo o que sobrou do dia com a pressa de quem sabe a hora de terminar. Quando aquilo apagar, os dois descem a montanha e cada um vai dormir sozinho. O som não mudou; mudou o sujeito sentado na frente dele. Essa é a única prova que tenho de que os anos passaram. Não está na minha cara, está no que eu escuto num filme que continua exatamente igual.

Bruno dirige uma motocicleta por uma estrada de montanha enquanto Pietro segue na garupa, usando um gorro vermelho.
O filme continua intacto, mas cada retorno encontra um espectador diferente. (Crédito: Divulgação)

Ontem, antes de dormir, terminei pela sétima vez o livro de Paolo Cognetti que deu origem ao filme e fui rever a cena. Ali, aquele momento era outro. Eu não era mais o escritor; dessa vez eu era o montanheiro, aprendendo com o tempo a me sentir confortável com a solidão e renunciando à companhia dos outros. Tudo que me importava era o espaço seguro em que construí meus muros. E a troca é fácil demais. Essa é a questão.

Acompanhamos de perto, durante as duas horas e um pouco mais, toda a trajetória de Pietro. A de Bruno preenchemos com os vazios de nossas mentes. O arco de Pietro a gente vê inteiro; o de Bruno fica subentendido, ele é feito de intervalo. É o mesmo buraco entre as falas que me fez voltar quatro, dez vezes àquela fogueira, e eu fui enchendo esse buraco com o que tinha em cada idade, primeiro com vontade de escrever, agora com vontade de sumir. Mas, ao rever aquele olhar e o sorriso discreto nos olhos de Bruno, eu era ele, percebendo que não existe segurança nenhuma em estar sozinho. Como naquele poema, paradoxo que ouvi lá em 2015: “O isolamento não é segurança, é morte. Se ninguém sabe que você está vivo, você não está. Se uma árvore cai na floresta e ninguém está por perto para ouvi-la, ela faz barulho, mas esse barulho desaparece.”1 O que resta é o silêncio jovem príncipe da Dinamarca.

O filme está intacto; quem chega nele é que já não é o sujeito que saiu daquele cinema numa sexta-feira de inverno. Voltar àquela fogueira é como voltar à minha montanha na Mantiqueira. “Nós todos temos nossa montanha”, diz o roteiro. É verdade. Esse lugar não se moveu um centímetro e, mesmo assim, nunca me recebe duas vezes do mesmo jeito.


  1. “This Is Not the End of the World”, Neil Hilborn, Our Numbered Days (2015). Tradução propria. ↩︎

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