No ano de 2010, durante a 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, estreava o longa-metragem de ficção Estrada para Ythaca. Uma espécie de road movie, o filme acompanha quatro amigos à procura de um quinto companheiro morto. Sua realização ficou por conta do coletivo cearense Alumbramento, composto por Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti.

Os quatro foram responsáveis por exercer todas as funções de produção da obra, entre direção, roteiro, fotografia, som direto, montagem, e, até mesmo, atuando no próprio filme. Ao todo, a obra custou menos de dez mil reais, valor que saiu do próprio bolso dos quatro realizadores, e lhes rendeu o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Aurora, dedicada aos primeiros longas-metragens de cineastas estreantes.

Estrada para Ythaca foi um dos filmes pioneiros do que os críticos chamaram de “Novíssimo Cinema Brasileiro”. As obras associadas a essa vertente cinematográfica não compartilham necessariamente entre si suas formas e temas, mas partem de um lugar comum: jovens cineastas que procuravam explorar as formas e extrapolar os limites cinematográficos sem depender dos reclusos e escassos recursos oriundos de leis de incentivo fiscal e editais públicos.

Escassez e inventividade

A resposta veio através do barateamento dos processos cinematográficos. A tecnologia digital, cada vez mais acessível e contando com suporte em vídeo, permitia a realização de vídeos feitos de forma ágil e barata.

Somando a isso, os novos cineastas apostavam na libertação das ideias de divisões rígidas das funções técnicas estabelecida pelo cinema industrial, adotando formas de produção mais colaborativas e de estrutura horizontal, como a própria Alumbramento que, nas palavras de Ricardo Pretti, em um texto de 2020 para o MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), foi “um coletivo artístico e foi também uma produtora de cinema”.

De forma intrínseca, essas formas colaborativas davam mais liberdade para explorar diferentes processos cinematográficos que priorizavam sua inventividade. As filmagens de Estrada para Ythaca foram realizadas sem um roteiro tradicional engessado, baseando-se apenas na viagem/processo e na relação de amizade entre os quatro diretores/personagens que interpretam a si mesmos e que, na maioria das diárias, eram as únicas pessoas no set.

É dessa precariedade assumida e dessa aparência de brincar de cinema que o próprio processo de realização passa a se confundir com a estrada percorrida pelo filme ou, como diz Ythallo Rodrigues no final do longa-metragem, ao indicar a estrada que leva para Ythaca na encruzilhada: “E por aqui o cinema de terceiro mundo, perigoso, divino e maravilhoso”.

Formas de fazer, formas de filmar

Um jovem segura um skate sobre o ombro no alto de uma construção, sob um céu azul.
Kickflip (2025) é o primeiro longa-metragem dirigido por Lucca Filippin (Crédito: Reprodução)

É nas diferentes formas de se fazer cinema que cada obra associada ao Novíssimo Cinema Brasileiro adota para si que as torna extremamente singulares. Estrada para Ythaca se contentou com uma equipe de quatro pessoas no set, enquanto, no longa-metragem Sophia Foi (2023), de Pedro Geraldo, exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes de 2024, depois de levar o Prêmio de Melhor Primeiro Filme no FID Marseille, bastou a presença do diretor e da atriz protagonista para construir uma narrativa intimista que transcende as fronteiras entre a ficção e o documental.

Assim como no longa da Alumbramento, em Kickflip (2025), de Lucas Fillipin, a narrativa também retrata a amizade de seus jovens protagonistas sem se levar muito a sério, mas de uma forma completamente diferente, ao adotar uma estética caseira, nostálgica e melancólica que remete ao início dos anos 2000 e ao começo das redes sociais.

Tiradentes, crítica e circulação

Além de serem realizados por jovens cineastas com orçamento limitado, existe outra semelhança importante entre os três títulos citados: todos foram exibidos na Mostra de Cinema de Tiradentes. Realizado desde 1998, o festival se consolidou como um dos mais importantes eventos cinematográficos nacionais, abrindo espaço para a programação de filmes independentes de jovens cineastas interessados em experimentar a linguagem cinematográfica, normalmente ignorados pelo mercado exibidor comercial.

Público acompanha uma mesa de debate com quatro participantes durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Rodas de conversa e debate marcaram a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Crédito: Leo Fontes)

Francis Vogner dos Reis, coordenador curatorial da mostra, é também crítico de cinema e, entre 2006 e 2014, escreveu para a revista eletrônica Cinética. A internet teve papel importante na formação dessa geração de realizadores e críticos, ampliando o debate cinematográfico para espaços virtuais como fóruns, blogs e revistas eletrônicas como a Contracampo e a própria Cinética. Esses ambientes ajudaram a conectar jovens interessados em fazer e discutir cinema, muitos dos quais passaram a formar pequenos núcleos de produção cinematográfica fora do eixo Rio-São Paulo, como a Alumbramento, no Ceará, o coletivo Teia, em Minas Gerais, e a Trincheira Filmes, em Pernambuco.

Ao mesmo tempo, a popularização de plataformas de compartilhamento de vídeos como YouTube e Vimeo permitiu que curtas e longas circulassem livremente à margem dos canais tradicionais de distribuição. Essas ferramentas também ampliaram e facilitaram o contato de cineastas e críticos brasileiros com produções realizadas em outras partes do mundo.

As redes serviram de palco para a circulação de manifestos, reflexões teóricas e debates sobre os rumos e validades estéticas das novas produções, formando uma nova geração de cineastas e críticos, muitos desses que, como Francis Vogner, migraram para a curadoria de festivais como a Mostra de Cinema de Tiradentes.

As Estradas para o Novíssimo

Os filmes associados ao Novíssimo Cinema Brasileiro são extremamente singulares e contraditórios entre si. Cada um explora processo e linguagem à sua própria maneira, demonstrando suas inquietações contemporâneas a partir de suas próprias referências e limitações (sempre transformadas em potência), e por tal motivo é difícil entender esses filmes como parte de um mesmo ‘movimento’.

No artigo O “novíssimo cinema brasileiro”. Sinais de uma renovação (2012), Marcelo Ikeda, crítico de cinema e professor do curso de graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC), defende: “Acredito que é possível dizer que esses realizadores formam uma geração, mais do que propriamente um movimento”. Ou seja, a semelhança entre os cineastas, críticos e amantes desse cinema nacional contemporâneo parece estar relacionada a um ponto de partida em comum, e, também, a uma escolha: a escolha de seguir a estrada para Ythaca, atrelada a vontade de fazer e pensar cinema a qualquer custo em um momento em que novas tecnologias surgem como facilitadoras, e limitações já não parecem barreiras, mas sim, possibilidades.

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