O cinema do amadurecimento costuma operar em duas chaves. Ou dramatiza o conflito externo, ou acompanha a mutação interna com atenção microscópica. ‘Corações Jovens’ pertence ao segundo grupo. Dirigido pelo cineasta belga Anthony Schatteman, o filme observa o momento em que um sentimento surge e reorganiza silenciosamente a percepção de mundo.
Elias (interpretado por Lou Goossens) descobre algo novo na presença de seu novo vizinho Alexander (vivido por Marius De Saeger). O que vibra ali não é escândalo nem ruptura ruidosa. É justamente o deslocamento de um pequeno tremor interno que modifica a maneira como ele habita o próprio corpo.
Esse registro aproxima o filme de uma linhagem sensível do cinema europeu recente. Há ecos da delicadeza de ‘Close’, de Lukas Dhont, na atenção aos gestos mínimos. Há ressonâncias do olhar contido de Céline Sciamma em ‘Tomboy’, onde identidade e descoberta caminham em ritmo íntimo. E existe, em certa medida, a atmosfera suspensa de ‘Me Chame Pelo Seu Nome’, na forma como o desejo surge como experiência sensorial antes de se tornar discurso.
O corpo antes da palavra

Schatteman entende algo fundamental sobre o primeiro amor: ele começa no corpo. Elias sente antes de compreender. O olhar demora um segundo a mais, a respiração se altera e o silêncio adquire densidade.
Essa abordagem insere ‘Corações Jovens’ numa tradição que privilegia a fisicalidade do afeto. Assim como em ‘Close’, o toque carrega peso narrativo. Assim como em Tomboy, a identidade se manifesta no modo de ocupar o espaço. O desejo não aparece como afirmação, mas como percepção progressiva.
A câmera participa desse processo com discrição. Planos fechados acompanham hesitações. A luz natural valoriza a textura da pele, o brilho nos olhos, a proximidade entre dois corpos ainda aprendendo a se reconhecer.
O olhar dos outros

Todo coming-of-age envolve o confronto entre intimidade e exterioridade. Elias vive a descoberta enquanto percebe o peso do ambiente social. Família e escola operam como forças que moldam expectativa.
A própria geografia contribui para essa tensão. Elias vive em uma cidade minúscula, rural, onde todos se conhecem, onde a escola é única, onde a rotina passa pela fazenda e pelo trabalho familiar.
A experiência de mundo é restrita e íntima. Alexander chega de um centro urbano maior, traz outra vivência, outros códigos, outra segurança. Seus tios mantêm um bar frequentado por diferentes públicos, um espaço onde performances e identidades circulam com mais liberdade. Essa diferença de origem molda a postura de cada um diante do que sente.

Essa dimensão aproxima o filme de ‘Monster’, de Kore-eda, na maneira como o julgamento coletivo atravessa a infância. O entorno nunca é neutro. Ele observa, interpreta, projeta.
A diferença está na escala. Enquanto ‘Monster’ estrutura sua narrativa a partir de versões conflitantes, ‘Corações Jovens’ mantém foco na experiência subjetiva. A tensão nasce menos do confronto aberto e mais da consciência de exposição.
O primeiro amor

O cinema já registrou inúmeras vezes o momento inaugural do desejo. De ‘Os Incompreendidos’, de Truffaut, ao lirismo de Wong Kar-wai em ‘Happy Together’, a juventude sempre ofereceu matéria para explorar vulnerabilidade e descoberta.
‘Corações Jovens’ encontra sua singularidade na economia de gestos. Ele evita amplificação dramática e aposta na intimidade prolongada. O cineasta belga confia o longa na potência do quase. No exato instante que antecede a palavra, na troca de olhares que reorganiza o espaço inteiro.

Essa escolha dialoga também com o debate que acompanhou o lançamento de ‘Close’. Parte da crítica apontou ali uma insistência no sofrimento como motor narrativo. ‘Young Hearts’ trilha outro caminho.
Schatteman imagina uma possibilidade de experiência afetiva menos marcada pela tragédia e mais voltada à sensação, quase como um gesto utópico. A juventude aqui é filmada como campo de descoberta antes de se tornar campo de punição fazendo com que opção altere o tom e amplie o alcance do filme.
Um espaço seguro

A fotografia constrói ambientes acolhedores, mas permeados por expectativa. Corredores escolares, quartos, ruas de bairro ganham textura afetiva. O mundo não se transforma externamente; a percepção de Elias é que altera a paisagem.
Esse tratamento visual dialoga com o cinema de Sciamma, especialmente na maneira como a câmera respeita o tempo emocional dos personagens. O filme demonstra um respeito raro pelo tempo da cena. Pausas, silêncios e pequenos intervalos funcionam como espaços de respiração para quem assiste. Essa construção potencializa o impacto emocional.

A sequência de Elias no carro, no trajeto de volta para casa, sintetiza essa escolha estética. A atuação contida concentra tensão interna sem recorrer a gestos expansivos. O enquadramento permanece, a respiração pesa, o silêncio amplia o conflito. A cena não busca explosão dramática. Ela sustenta o desconforto até que ele se torne quase físico. É nesse controle que reside sua força.
Outro momento emblemático acontece no bar dos tios de Alexander. Enquanto uma drag queen se apresenta e a música preenche o espaço, Alexander acompanha ao piano.
A câmera se aproxima lentamente de Elias. O rosto dele se ilumina com uma mistura de fascínio, descoberta e felicidade silenciosa. A cena condensa pertencimento e desejo em um único movimento de câmera. Ali, o mundo parece maior do que a pequena cidade que ele conhece.
Memória futura

Há algo que distingue ‘Corações Jovens’ dentro do eixo desta semana no SUBTXTO. Se ‘Monster’ investigava julgamento e ‘Ponte para Terabítia’ explorava imaginação como ferramenta de elaboração, aqui o foco recai sobre o nascimento da identidade afetiva.
O filme registra o instante em que alguém percebe que o próprio coração pode seguir caminhos imprevistos. E esse reconhecimento precisa de coragem íntima.
O coming-of-age LGBTQIA+ contemporâneo tem buscado exatamente isso. Menos trauma espetacularizado, mais atenção à experiência sensorial do crescimento.
O que significa sentir

‘Corações Jovens’ compreende que crescer envolve atravessar zonas desconhecidas dentro de si. O primeiro amor inaugura um tipo de consciência que permanece pela vida inteira.
O filme encerra sem oferecer respostas definitivas. Ele preserva a vibração inicial do sentimento. Aquela energia que mistura medo, curiosidade e encantamento.
Schatteman consegue capturar com maestria o momento em que o afeto ganha nome e, com isso, transforma o mundo interno para sempre.





