Lola sabe nadar. Tem medalhas, técnica e um corpo treinado para repetir movimentos com precisão. Um estilo, porém, continua bloqueado. O borboleta exige dela algo que os outros nados parecem não pedir, e Medley encontra nessa dificuldade uma imagem simples para falar de uma adolescente que ainda carrega emoções difíceis de elaborar.

Interpretada por Mel Maia, Lola tem 16 anos e vive uma relação difícil com Catarina, sua mãe, personagem de Mariana Lima. Após uma briga, segue para Salto Bonito, onde entra para a equipe local de natação e conhece Gabriel, vivido por Guthierry Sotero. A temporada longe de casa também reabre perguntas sobre o pai ausente e sobre uma história familiar que ela conhece apenas parcialmente.

Dirigido por Ana Luiza Azevedo, o longa adapta o livro Medley ou Os Dias em que Aprendi a Voar, de Keka Reis, que também assina o roteiro. A produção brasileira tem fotografia de Lílis Soares e montagem de Giba Assis Brasil.

A água concentra o elemento mais expressivo do filme. Dentro da piscina, a adolescência de Lola pode ser percebida pelo esforço do corpo e pela respiração. Fora dela, o roteiro nem sempre consegue dar à personagem a mesma complexidade.

Close-up de Lola com touca vermelha e óculos azuis à beira da piscina.
A relação de Lola com a piscina sustenta os momentos mais fortes do filme. (Crédito: Divulgação)

Um corpo que ainda não consegue voar

O nado borboleta é uma escolha particularmente adequada para Lola. O movimento exige coordenação entre braços e pernas e projeta o corpo para fora da superfície em intervalos sucessivos. O próprio nome sugere uma leveza que contrasta com a dificuldade da personagem em executá-lo.

Medley usa esse bloqueio como expressão de algo emocional. Lola domina a água até chegar ao ponto em que uma memória interfere no movimento. A relação com o pai retorna durante os treinos e associa a piscina a sentimentos que permaneceram mal resolvidos.

Ana Luiza Azevedo filma essas sequências com atenção ao esforço. A respiração interrompida e o som abafado debaixo d’água aproximam o espectador de uma experiência que passa pelo corpo. A piscina cria um espaço em que Lola pode se afastar do ruído das relações familiares e ficar entregue à repetição do nado.

O filme é mais interessante quando confia nessa relação entre memória e movimento. Não precisa explicar por que Lola trava em determinado instante. A interrupção física já comunica o suficiente.

Tomo a liberdade de realizar uma aproximação com A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieślowski. Julie, interpretada por Juliette Binoche, perde o marido e a filha em um acidente e retorna repetidamente a uma piscina enquanto tenta viver com o luto. A água oferece privacidade até para o choro, porque lágrimas e rosto molhado podem se confundir.

Julie, interpretada por Juliette Binoche, dentro de uma piscina iluminada em azul.
Em A Liberdade é Azul, Julie, interpretada por Juliette Binoche, volta repetidamente à piscina carregando consigo o luto. (Crédito: Reprodução)

Lola vive outra experiência, mas a associação funciona pela maneira como a piscina recebe sentimentos que as personagens controlam fora dela. Em ambos, nadar também é tentar organizar pelo corpo aquilo que resiste à palavra.

Diante dos limites do roteiro

Essa dimensão sensorial torna mais difícil avaliar isoladamente a atuação de Mel Maia. A atriz encontra bons momentos quando Lola pode permanecer em silêncio e reagir ao espaço ao redor. A dificuldade aparece quando o roteiro tenta verbalizar seus conflitos.

Muitos diálogos dão pouco material às relações. Discussões com a mãe e conversas sobre o pai frequentemente apontam a emoção que a cena deveria produzir, sem desenvolver o suficiente as contradições da personagem. A interpretação precisa preencher espaços que a escrita mantém rasos.

Isso não torna o trabalho de Mel Maia necessariamente frágil. O problema está em separar aquilo que pertence à atriz daquilo que deriva das limitações dramáticas oferecidas a Lola.

Lola sentada sozinha em um sofá, abraçada a uma almofada.
Mel Maia está especialmente bem quando precisa trabalhar com o silêncio e com o espaço ao redor. (Crédito: Divulgação)

Mariana Lima enfrenta dificuldade parecida como Catarina. A relação entre mãe e filha poderia sustentar uma parcela maior do filme, principalmente porque o silêncio em torno do pai afeta as duas de maneiras diferentes. Algumas cenas sugerem uma história familiar mais complexa do que o roteiro consegue aprofundar.

Quando mãe e filha entram em conflito, aparece material para um filme sobre duas pessoas que lidam de maneiras distintas com uma ausência. Medley frequentemente encerra essas situações cedo demais e procura outro assunto.

Um coming of age dividido

A temporada em Salto Bonito abre Lola para experiências comuns ao coming of age. Ela conhece pessoas e se integra a outro grupo de nadadores. O ambiente do interior também oferece ao filme um ritmo diferente daquele das cenas familiares.

Lola, suas companheiras de equipe e o treinador reunidos diante de uma Kombi.
A convivência com o grupo de nadadoras amplia o universo de Lola durante a temporada em Salto Bonito. (Crédito: Divulgação)

O romance com Gabriel, entretanto, evidencia parte das fragilidades do roteiro. A relação ocupa um espaço considerável sem produzir uma mudança proporcional em Lola. Os conflitos surgem e se encerram com pouca consequência, criando a impressão de que algumas situações estão ali porque se espera que um filme sobre uma adolescente também tenha um romance.

A trama romântica interrompe em vários momentos o caminho mais contemplativo ligado à água e à memória.

Gabriel abraça Lola diante da Kombi e dos demais jovens da equipe.
O romance com Gabriel ocupa espaço considerável na narrativa, mas não produz uma transformação proporcional na personagem. (Crédito: Divulgação)

O contraste é perceptível. As cenas de natação permitem que uma imagem carregue diferentes sentimentos ao mesmo tempo. O romance costuma depender de diálogos bastante diretos para estabelecer cada conflito.

Essa diferença afeta o ritmo. Medley parece conhecer muito bem o filme que quer ser quando Lola está sozinha na água, mas demonstra menos segurança ao seguir os códigos de uma narrativa juvenil convencional.

Aprender o borboleta

O próprio título ajuda a pensar essa trajetória. Medley é a prova que reúne diferentes estilos de natação dentro da mesma disputa. Lola consegue executar quase todos, mas precisa enfrentar aquele associado ao bloqueio que carrega.

Aprender o borboleta significa lidar com uma memória que o corpo vinha recusando. O esporte ganha interesse dramático porque a vitória relevante não depende apenas do resultado de uma competição. Conseguir completar o movimento indica uma mudança na relação de Lola com aquilo que aconteceu.

Esse é o caminho em que Ana Luiza Azevedo parece compreender melhor sua protagonista. A fotografia de Lílis Soares encontra na água uma superfície capaz de esconder e revelar ao mesmo tempo. A câmera pode observar Lola por cima, mergulhar com ela ou permitir que seu corpo desapareça momentaneamente sob a superfície.

Essas imagens possuem uma delicadeza que o texto raramente alcança. A água não precisa explicar o que Lola sente. Ela recebe sua raiva e sua tristeza e devolve tudo em movimento.

Medley seria um filme mais consistente se confiasse por mais tempo nessa simplicidade. A adolescência de Lola já está no corpo que domina vários estilos e trava diante de um deles.

Lola não precisa esquecer para completar o movimento. A memória continua no corpo quando ela volta a atravessar a piscina. Desta vez, não a faz parar.

Lola sorrindo dentro da piscina, ao lado da divisória amarela.
Lola não precisa esquecer para completar o movimento. (Crédito: Divulgação)

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