Fotografia AGNÈS VARDA Cinema vai além do registro fotográfico e propõe um diálogo com a obra cinematográfica da artista franco-belga. Em cartaz na Fundação Iberê, em Porto Alegre, desde 12 de setembro, a exposição segue até 28 de fevereiro de 2027, com curadoria de Rosalie Varda, filha da cineasta, e João Fernandes, diretor artístico do Instituto Moreira Salles (IMS).

A mostra reúne cerca de 200 fotografias realizadas por Varda principalmente nas décadas de 1950 e 1960. Parte desse arquivo permaneceu durante anos guardada pela família e voltou a ser observada após a morte da cineasta, em 2019. Segundo Rosalie, a fotografia ocupava uma posição particular na trajetória da mãe, que iniciou sua vida artística atrás de uma câmera fotográfica antes de encontrar no cinema uma possibilidade de prolongar aquilo que via.

Essa passagem de uma linguagem para outra está no centro da exposição. Para Varda, interessava descobrir o que poderia existir antes e depois do instante fixado pelo clique. O movimento surgia como uma continuidade possível da imagem.

Antes de dirigir filmes como Cléo das 5 às 7 (1962) e Os Renegados (1985), Varda construiu uma trajetória importante como fotógrafa, inclusive no Festival de Avignon e no Théâtre National Populaire. A fotografia, menos conhecida do que sua produção cinematográfica, aparece na mostra como parte fundamental da formação de seu olhar.

Da fotografia ao movimento

Três filmes ajudam a estabelecer essa ligação ao longo do percurso expositivo. La Pointe Courte, primeiro longa dirigido por Varda e lançado em 1955, aparece ao lado do curta A Ópera-Mouffe (1958) e de Saudações, cubanos! (1963).

Uma das obras expostas pela curadoria. (Crédito: Alessandro Varela/SUBTXTO)

Este último torna especialmente visível a passagem da fotografia para o cinema. Depois de viajar a Cuba em 1963, Varda retornou à França com cerca de 1.800 fotografias. A partir desse material, construiu um filme de 30 minutos em que imagens fixas são reorganizadas pelo ritmo da montagem, pela música e pela narração.

Na exposição, essa relação faz com que as fotografias pareçam guardar algo para além do momento registrado. Diante delas, surge frequentemente a impressão de que há uma imagem seguinte, uma ação ainda por acontecer. O cinema de Varda acabaria explorando precisamente essa possibilidade de prolongamento.

Uma fotógrafa em viagem

O recorte preparado para a exposição brasileira reúne imagens feitas durante viagens por países como China, Cuba, Estados Unidos e Portugal, além de registros realizados na França. São fotografias que revelam o interesse de Varda pelas pessoas e pelos ambientes que encontrava, antes mesmo de muitas dessas questões reaparecerem em seus filmes.

Nos Estados Unidos, esse olhar se voltou ainda para o contexto político. Em 1968, Varda realizou Black Panthers, curta filmado em Oakland durante as mobilizações em torno do ativista Huey P. Newton e do Partido dos Panteras Negras.

Durante a apresentação da mostra, João Fernandes definiu essa dimensão do trabalho da cineasta a partir de uma distinção. Para o curador, Varda não se orientava pelas ideias de uma militância abstrata, e sim pelas pessoas com quem estabelecia relações através de seu trabalho.

A exposição permite observar essa aproximação desde um período anterior à consolidação de Varda como cineasta. Suas fotografias já carregavam a atenção às pessoas, às situações que encontrava e ao tempo existente para além dos limites do enquadramento.

Fotografia AGNÈS VARDA Cinema oferece, assim, a oportunidade de olhar para uma cineasta ainda em formação e perceber que a passagem para o cinema não significou o abandono da fotografia. As duas linguagens seguiram se alimentando ao longo de uma obra construída a partir da curiosidade por aquilo que uma imagem pode guardar e por aquilo que pode acontecer depois dela.

Serviço

Fotografia AGNÈS VARDA Cinema

Onde: Fundação Iberê, Avenida Padre Cacique, 2000, bairro Cristal, Porto Alegre
Visitação: até 28 de fevereiro de 2027, de quinta-feira a domingo e feriados, das 14h às 18h
Ingressos: entrada gratuita às quintas-feiras; nos demais dias, ingressos disponíveis na bilheteria e pelos canais da Fundação Iberê

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