‘A Bola Preta’ (‘La bola negra’, no original) inaugura com um bombardeio de forte impacto. Nos primeiros minutos, Javier Calvo e Javier Ambrossi colocam seus personagens diante de um mundo capaz de interromper uma vida de maneira repentina. A violência dessa abertura percorre um filme interessado em desejos submetidos às regras de cada época.

Federico García Lorca está na origem do projeto. Restaram apenas quatro páginas de ‘La bola negra’, peça iniciada pouco antes de seu assassinato em 1936. Nelas, o escritor apresenta Carlos, um jovem recusado ao tentar ingressar num cassino de Granada. O título vem do sistema de votação utilizado pelos sócios. A bola branca aprovava o candidato, enquanto a preta significava rejeição.

Lorca pretendia escrever um protagonista abertamente homossexual. Seu assassinato interrompeu a peça e deixou Carlos restrito àquelas páginas.

Quase noventa anos mais tarde, Calvo e Ambrossi retomam esse material ao lado do roteirista Alberto Conejero. Três períodos da história espanhola se cruzam por personagens que vivem o desejo sob condições distintas. A fragmentação preserva inicialmente a distância entre eles e, aos poucos, revela relações capazes de atravessar décadas.

A fantasia da possibilidade

Penélope Cruz aparece por poucos minutos como Nené Romero e domina cada cena em que entra. A personagem apresenta a Sebastián um universo no qual aparência e desejo podem ser experimentados com uma liberdade desconhecida por ele.

É dela uma das frases mais marcantes do filme. “El travestismo es la fantasía de la posibilidad y la guerra, todo lo contrario.”

A ideia da possibilidade ajuda a compreender boa parte de “A Bola Preta”. O travestismo se associa à liberdade de experimentar a própria existência além daquilo que foi prescrito. A guerra restringe essas possibilidades até transformar a diferença em alvo.

Nené conhece a fragilidade da liberdade oferecida pelo palco. Sua relação com Sebastián carrega essa consciência e apresenta a ele um horizonte que sua própria vida havia mantido distante.

A dança de Carlos no bar leva essa ideia para o corpo. O personagem experimenta pelo movimento uma liberdade que seu tempo restringe. A sequência permite que aquilo que Lorca deixou em quatro páginas chegue à tela com uma intensidade que ultrapassa a palavra escrita.

O desejo que Sebastián contém

O núcleo de Sebastián leva essa discussão para outro contexto histórico. Interpretado por Guitarricadelafuente, ele vive o homoerotismo cercado por contenção e parece medir continuamente aquilo que pode demonstrar diante dos outros.

Parte dessa repressão já foi interiorizada. Sebastián observa o próprio desejo a partir de códigos sociais que aprendeu e que continuam agindo sobre sua intimidade.

Guitarricadelafuente trabalha o personagem por pequenas hesitações. A curiosidade aparece nas aproximações de Sebastián e frequentemente encontra algum recuo. O conflito está nesse intervalo entre desejar e permitir-se agir sobre esse desejo.

A presença de Nené interfere diretamente nesse percurso. Ao falar sobre travestismo como fantasia da possibilidade, ela apresenta a Sebastián uma liberdade que ele ainda tenta alcançar.

Carlos e Sebastián pertencem a épocas distintas, e a ligação entre eles nasce daquilo que cada período permite que um homem queer faça com o próprio desejo. A repressão muda ao longo das décadas e pode continuar agindo longe da violência explícita experimentada pelas gerações anteriores.

Uma memória que atravessa o tempo

O salto para 2017 acrescenta um terceiro registro ao filme. Alberto, interpretado por Carlos González, é um historiador com passagem pela dramaturgia que recebe uma herança ligada a um avô cuja existência desconhecia. A investigação familiar o coloca novamente diante de Teresa, sua mãe, com quem mantém uma relação difícil.

Esse núcleo flerta abertamente com um melodrama à la Almodóvar. O conflito entre mãe e filho mistura ressentimentos antigos com revelações familiares. A busca pelo avô aproxima Alberto de uma história que durante muito tempo permaneceu fora de seu conhecimento.

Lola Dueñas intensifica esse registro como Teresa. Sua resistência à investigação sugere uma geração acostumada a guardar determinadas histórias dentro da família e a controlar aquilo que chega aos descendentes.

Alberto vive sua sexualidade de maneira muito diferente de Carlos e Sebastián. Em 2017, ele investiga a própria história familiar a partir de uma posição que seus antecessores dificilmente tiveram. Décadas de silêncio, porém, ainda chegam até ele por documentos e segredos preservados dentro de casa.

É nesse terceiro núcleo que a estrutura fragmentada se completa. As conexões entre as épocas revelam uma transmissão histórica feita por rastros e lacunas. Uma experiência reprimida em determinado período pode reaparecer anos depois na vida de alguém que só então descobre sua ligação com aquele passado.

As quatro páginas de Lorca resumem bem esse procedimento. Elas registram Carlos e também a interrupção de sua história. Calvo e Ambrossi retomam essa ausência muitos anos mais tarde e permitem que o personagem finalmente chegue ao cinema.

Essa relação alcança o presente para além da Espanha. Em diferentes partes do mundo, viver publicamente o próprio desejo ainda depende das leis vigentes e do ambiente social ao redor. Em alguns países, relações entre pessoas do mesmo sexo continuam criminalizadas.

Por isso, recuperar Lorca em 2026 ultrapassa a homenagem. A experiência de Carlos encontra ecos em contextos muito diferentes, com graus de repressão que variam conforme o país e o período histórico.

A neve

A sequência final reúne aquilo que o filme espalhou pelas três linhas temporais. Carlos chega a uma paisagem coberta de neve e entra num estado próximo de um limbo, afastado por alguns instantes da rigidez histórica que marcou sua vida.

‘La Nieve’, composta e interpretada por Guitarricadelafuente com Raül Refree, conduz essa passagem. A canção carrega a experiência emocional de Sebastián e atravessa a cena de Carlos, criando mais uma ligação entre personagens separados por décadas.

A montagem permite que as três histórias coexistam. O tempo perde por alguns minutos sua separação habitual e o cinema reúne pessoas que jamais poderiam ter compartilhado aquele momento.

A morte de Carlos torna a sequência profundamente dolorosa. A paisagem branca oferece um intervalo no qual aquelas vidas finalmente dividem a mesma imagem, enquanto a música amplia a conexão construída durante o filme.

Nesse momento, Alberto também integra plenamente esse desenho. Sua investigação trouxe ao presente uma história que começou muito antes de seu nascimento. A montagem aproxima as três épocas e transforma essa distância temporal em continuidade.

É difícil chegar a esse momento sem pensar novamente em Lorca. Carlos nasceu de uma obra interrompida e recebe, quase noventa anos mais tarde, uma despedida que seu autor nunca teve a oportunidade de escrever.

‘A Bola Preta’ começa com quatro páginas e termina reunindo vidas separadas pelo tempo. Carlos chega à tela e dança. Sebastián tenta romper uma repressão que aprendeu a carregar. Alberto procura na própria família os vestígios de uma história que desconhecia.

A bola preta significava recusa. Quase noventa anos mais tarde, o filme responde abrindo possibilidades.

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