O problema da tradição é mais complexo do que parece. Theodor Adorno, teórico que já citei esta semana na crítica de Feito Pipa, argumentou que a tradição seria essencialmente feudal, de uma época em que o trabalho era manual e a cultura tinha algo de um contato mais próximo entre as pessoas. O capitalismo, contudo, ainda seguindo essa leitura, não se desfaz completamente da tradição. Ele depende, na verdade, de certo “cheirinho” de tradição que vem com algumas de suas mercadorias.
No debate após a sessão de Se Eu Fosse Vivo… Vivia no Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (FRAPA), o diretor e roteirista André Novais Oliveira comentou como o filme combina, algo de realista com influências de escritores ligados ao realismo mágico, como Murilo Rubião, e de séries de ficção científica como The Twilight Zone. Também podemos facilmente posicionar o longa na linhagem do afrofuturismo, movimento que mistura ficção científica e negritude.
Minha questão com esta crítica é: em que medida André e o restante da equipe conseguem inserir algo de uma experiência autêntica nessa obra que, conforme dito, claramente se filia a algumas tradições, ainda que tenha sido produzida em 2026? Em outras palavras, seu filme fica só com o “cheirinho” de tradição ou tem algo de fato a dizer?
A resposta direta e curta é que sim, o filme me parece conseguir alcançar algo de uma experiência autêntica e ter algo a dizer, apesar dos pesares. A resposta longa vem abaixo.
Acredito que o maior trunfo do filme esteja em não se prender a uma única tradição ou subscrever completamente a uma estética. Ele cria algo a partir do entrelaçamento de escolhas formais diferentes e, a princípio, conflitantes. Isso não significa que uma obra precisa escapar de uma única tendência estética para funcionar.. Neste caso, foi dessa mistura que Novais tirou boa parte da singularidade do filme.

Se Eu Fosse Vivo… Vivia tem de fato algo de realismo, algo de realismo mágico e de afrofuturismo. Tem drama, um humor bastante peculiar, e até elementos de terror. A primorosa trilha do filme, assinada pelo Metá Metá, reflete todos esses elementos, aliás.
Por que digo que essa junção de “retalhos” colabora com a presença de algo de uma experiência autêntica, ou, em outros termos, com a “impressão de vida vivida” do longa? Porque desse modo ele evita, ao menos até certa medida, a mesmice, o já esperado, o sempre-igual.
Só a mistura não basta. Os retalhos precisam estar bem costurados, fazer sentido juntos. Aí está, acredito, o ponto mais complexo do filme. Esse era o problema que a equipe precisava resolver. E, de novo, acredito que tenha resolvido razoavelmente bem.
O arco final do filme é onde essa costura funciona melhor. Ali temos luto, ficção científica e um humor muito singular. A piada final funciona não apenas porque é boa, mas porque o timing dentro da narrativa é preciso.

A propósito, existe uma tendência a se enxergar o humor como algo mais simples e menos interessante que o drama, por exemplo. Algo similar acontece com a ficção científica. Quer dizer, portanto, que Novais escolheu gêneros um tanto “rebaixados” para construir seu filme.
Mas é claro que a visão desses tipos de narrativa como coisas menores é bobagem. Existem boas obras e obras ruins em todo gênero. A crônica, por exemplo, por muito tempo foi vista como um gênero menor. Hoje em dia, contudo, é amplamente aceita como literatura de interesse.
Parte do que faz com que o humor seja visto de forma depreciativa certamente tem a ver com o fato de que ele parece nos pegar mais no nível da resposta rápida do corpo e menos no nível do pensamento consciente e vagaroso.
Ao mesmo tempo, como o próprio Novais também falou, há certa lentidão no seu cinema. Ou seja, também em termos de ritmo, de temporalidade, digamos, o filme costura coisas diversas.

Mas digo mais uma vez: somente a colagem não daria um bom filme. Afinal, esse procedimento é bastante característico de formas que a crítica identifica como pós-modernas, e, com frequência, nada ou quase nada de importância está sendo dito nelas. Opera-se por pastiche, ou seja, pela imitação pouco produtiva de estilos do passado (estou bebendo, aqui, do trabalho de um teórico chamado Fredric Jameson).
Se Eu Fosse Vivo… Vivia não me parece pecar nesse sentido. Ele tem problemas, é claro. As atuações, por exemplo, poderiam ser melhores, e o texto às vezes não funciona, mas o filme não está esvaziado de sentido. Muito pelo contrário.
Voltando à questão da tradição, eu diria que um elemento ajuda a narrativa a escapar de uma lógica totalmente regredida: ela não se leva a sério em demasia. Há algo do nível da brincadeira, do chiste ou do gracejo no filme (o que, aliás, já está no título).
Os momentos mais fracos da obra aparecem quando ela se leva mais a sério. Nesses trechos, os limites das atuações ficam mais salientes, embora também possa haver aí um problema de roteiro ou de direção.
Mas o caso é que o filme acerta em pontos importantes. Aliás, nesse ponto da brincadeira, do chiste ou do gracejo, especialmente combinado a coisas um tanto absurdas, o filme também se filia a uma espécie de tradição mais ou menos recente – e bastante brasileira. Penso em obras como Durval Discos, O Homem que Copiava, Estômago e Reflexões de um Liquidificador.
Apesar de recente, acredito que essa tradição diz muito sobre nossa sociabilidade. Sobre um encontro entre coisas muito absurdas e certa normalidade. Sobre um olhar que aprende a conviver com o absurdo, que faz dele membro da família.

Fica uma questão: esses filmes, Se Eu Fosse Vivo… Vivia em particular, denunciam ou ajudam a fortalecer essa lógica? Não tenho uma resposta. Talvez nos fazer olhar para ela já seja bastante.





