O fenômeno de Lorena e Juquinha, casal de Três Graças que ganhou uma produção vertical própria após a repercussão na novela, é o ponto de partida de Loquinha: Amor que vira memória, documentário independente dirigido por Ana Boeckel. Lançado em 24 de setembro no YouTube, o filme reúne depoimentos de 15 mulheres e amplia o recorte para discutir a representação de relacionamentos entre mulheres na teledramaturgia brasileira, incluindo histórias marcadas por censura em diferentes períodos.
Com roteiro e direção de Ana Boeckel e montagem de Beatriz Vecchi, o documentário parte da repercussão alcançada por Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) para registrar a relação construída entre as personagens e o público. O projeto reúne 15 mulheres de diferentes lugares e entrelaça seus depoimentos à trajetória do casal, observando como uma história exibida na televisão conseguiu atravessar experiências pessoais e permanecer viva mesmo após o fim de Três Graças, em maio deste ano.
A ideia de transformar essa repercussão em documentário ganhou força para Ana durante a exibição da novela, especialmente a partir da cena de intimidade protagonizada pelas personagens: “A gente tem duas mulheres numa cena de intimidade na televisão aberta, no horário nobre, e isso não é pouca coisa. Foi aumentando esse desejo de eternizar essa história cada vez mais. Ver a repercussão em todos os lugares e furando a bolha, para mim, foi o mais incrível”, conta.
A proposta, porém, não se limita a reconstruir a trajetória de Lorena e Juquinha. O roteiro utiliza o casal como ponto de partida para percorrer a representação dos relacionamentos entre mulheres na teledramaturgia e recuperar histórias que enfrentaram diferentes formas de censura ao longo dos anos.

“Eu não queria que fosse só algo sobre Loquinha. Muito pela minha profissão e até pela minha sexualidade, que são duas coisas que sempre conversaram a vida toda, eu queria fazer um traçado pela história dos amores lésbicos na teledramaturgia. Queria que esses depoimentos permeassem a história desse casal, mas que também fosse um passeio por outros casais que foram censurados, para que a gente chegasse até aqui”, explica Ana.
Para construir essa narrativa, a diretora buscou reunir diferentes experiências entre as 15 participantes. O processo começou pelas redes sociais, quando Ana publicou que procurava fãs de Loquinha interessadas em contar suas histórias. A intenção era ampliar as perspectivas reunidas pelo filme e incluir também mulheres de fora do Brasil, acompanhando a dimensão internacional conquistada pelas personagens.
Entre os relatos, um deles sintetizou para Ana a relação entre teledramaturgia e vida real. Uma das entrevistadas conta que, após a exibição da cena em que Lorena é expulsa de casa, viveu situação semelhante e recebeu uma ligação da própria mãe depois que ela assistiu à sequência na novela.
“Para mim, é por isso que a teledramaturgia existe, é por isso que ela entra na casa de milhões de pessoas todos os dias e é por isso que atravessa as pessoas dessa forma tão potente. Isso para mim nunca vai ser pouca coisa”, afirma.
De “Três Graças” ao fenômeno Loquinha
A mobilização em torno de Lorena e Juquinha ultrapassou os capítulos de Três Graças. A resposta dos fãs levou os Estúdios Globo a criarem Loquinha, novela vertical escrita por Márcia Prates e com direção artística de Luiz Henrique Rios. Desenvolvida especialmente para as redes sociais, a produção contou com 25 episódios dedicados ao cotidiano das personagens e aos desafios enfrentados pelas duas na construção de uma vida juntas.
Considerando os conteúdos da campanha, os episódios e suas versões traduzidas, Loquinha acumulou 234 milhões de visualizações e 14 milhões de interações. A produção também recebeu versões em inglês e espanhol, ampliando a circulação da história para outros países.
Para Ana, parte dessa conexão está na maneira como o relacionamento foi incorporado ao cotidiano da novela: “A gente nunca viveu uma história dessa na teledramaturgia, não só em termos de tempo de tela e de roteiro, mas de banalidade, no melhor sentido da palavra. A gente nunca teve um casal de duas mulheres ou de dois homens que tivesse vivido a banalidade do cotidiano na história da televisão. E isso, para mim, é algo histórico.”
A repercussão também chegou ao mercado publicitário. Loquinha está entre as campanhas premiadas na 19ª edição do Effie Awards Brasil, reconhecimento dedicado a estratégias que associam criatividade a resultados efetivos. A categoria do troféu conquistado pela produção será conhecida durante a cerimônia marcada para 10 de novembro, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.
Loquinha: Amor que vira memória foi inicialmente pensado para chegar ao público ainda durante a reta final de Três Graças. O projeto acabou permanecendo guardado após o encerramento da novela e agora ganha seu lançamento independente cinco meses depois.
“Eu queria muito que ele estivesse no mundo antes de a novela acabar. Hoje sinto que está sendo lançado no momento certo. Loquinha é um casal que vai seguir com uma repercussão eterna”, diz Ana. “Histórias que atravessam a vida das pessoas através da arte sempre merecem ser ouvidas. Eu queria muito que essas meninas fossem ouvidas.”
Ana Boeckel amplia trajetória no audiovisual
Atriz carioca, Ana Boeckel iniciou sua formação no teatro aos 15 anos e passou a explorar diferentes áreas da criação artística. Além da atuação, acumulou experiências nos bastidores da produção teatral e atualmente se especializa em direção audiovisual.
Diante das câmeras, integra projetos para cinema e televisão. Em Emergência 53, do Globoplay, fez sua primeira participação em uma produção da Globo ao interpretar Clara no quinto episódio da série criada por Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington. A personagem acompanha de perto uma situação de violência doméstica e colocou Ana em cena ao lado de nomes como Adriano Garib e Ana Hikari, sob direção de Cláudio Torres.

No cinema, participa de Trago Seu Amor, longa protagonizado por Giovanna Grigio, e protagoniza o curta-metragem Azul, dirigido por Luiza Pinheiro. Na produção, interpreta Celine, uma cantora de velório que, após perder a namorada, recebe a oportunidade de reencontrá-la por mais um dia. O curta vem circulando por festivais no Brasil e no exterior.
Ana também desenvolve trabalho como criadora de conteúdo dedicado à televisão, ao cinema e ao audiovisual. Em suas redes sociais, produz análises, entrevistas e conteúdos sobre os processos envolvidos na criação de obras audiovisuais. Com Loquinha: Amor que vira memória, reúne essas diferentes frentes em um projeto autoral no qual assume roteiro e direção.
Ficha técnica
Loquinha: Amor que vira memória
Roteiro e direção: Ana Boeckel
Montagem: Beatriz Vecchi
Lançamento: 24 de setembro de 2026
Exibição: canal de Ana Boeckel no YouTube





