Logo nos primeiros minutos de O Som ao Redor (2012), primeiro longa-metragem de ficção do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, vemos uma série de fotografias em preto e branco de trabalhadores rurais dos antigos engenhos de açúcar de Pernambuco, com seus rostos marcados pela exploração canavieira e pela lógica escravocrata. Em seguida, a montagem corta para o pátio de um condomínio contemporâneo, onde crianças brancas andam de patins na área de lazer, enquanto empregadas domésticas continuam a servi-las e cuidar delas sob o sol escaldante.
Essa transição inicial, embora faça um salto temporal de décadas, sugere tematicamente menos uma ruptura do que uma continuidade. O passado se recusa a passar porque ainda se faz presente.

Passado organiza presente
Na trama, acompanhamos a rotina de uma rua de classe média do bairro de Setúbal, na zona sul do Recife, com porteiros, síndicos, empregadas domésticas, crianças brincando e cachorros que incomodam com seus latidos. Para além de um retrato da vida urbana recifense, O Som ao Redor propõe uma investigação sobre algo muito mais denso.
A rua que serve de cenário ao filme funciona como um microcosmo alegórico da sociedade brasileira, em que o passado dos engenhos segue organizando os espaços e as relações sociais. O antigo coronel agora é o proprietário urbano que domina o mercado imobiliário local. A lógica da senzala continua refletida nas divisões espaciais e nas relações entre os personagens. O capataz reaparece sob a farda da equipe de segurança particular, vigiando os limites da propriedade privada.

Com isso, o longa se revela um estudo sobre a persistência do passado no presente do país e sobre a maneira como o desenvolvimento do capitalismo brasileiro não eliminou as estruturas sociais arcaicas dos períodos colonial e imperial. Ao contrário, absorveu e modernizou essas estruturas.
Sob novas roupagens, permaneceram relações de poder herdadas de uma formação social marcada pela escravidão, pelo coronelismo e pela concentração da propriedade.
Toda essa dinâmica é trabalhada de maneira coesa pela direção de Kleber Mendonça Filho, que aqui consolida características estéticas e temáticas que já vinha experimentando em curtas-metragens anteriores, como Eletrodoméstica (2005) e Recife Frio (2009).
Tecnicamente, o diretor utiliza elementos do cinema de gênero, principalmente do suspense e do terror, para criar uma atmosfera inquietante, como se a qualquer momento os fantasmas do passado estivessem prestes a abalar a rotina dos personagens. Além disso, a narrativa fragmentada, com múltiplos personagens e mais interessada nas situações do que no desenvolvimento individual de cada um, contribui para formar um mosaico das relações sociais estabelecidas na trama, numa construção que remete fortemente ao cinema de Robert Altman.
O que o som expõe
Soma-se a isso o excelente trabalho de som, que utiliza os ruídos diegéticos para criar uma sensação permanente de inquietação. Cachorros latem sem cessar, alarmes disparam, máquinas produzem ruídos contínuos, portões abrem e fecham, passos ecoam.

O que a imagem higienizada da vida da classe média recifense busca esconder, o som expõe, como uma espécie de inconsciente acústico da rua. Esses ruídos anunciam aquilo que está latente fora de quadro e prestes a vir à tona: a luta de classes ainda não resolvida e a ameaça constante de um conflito reprimido.

Esse tensionamento de classe é explicitado de maneira sutil e gradativa pelo filme. São os empregados que invadem as casas dos patrões para transar em suas camas, o arranhão feito propositalmente pelos funcionários no carro da patroa que os tratou de modo grosseiro e a forma cruel como uma reunião de condomínio decide o destino do porteiro que trabalha há anos no prédio.
Os espaços estão sempre em disputa, enquanto o medo domina os moradores da rua, que se trancam em seus apartamentos e casas atrás de grades e câmeras de segurança.
Medo de quem está lá fora
Esse medo é exemplificado na cena do sonho da garotinha, em que ela vê, da janela de seu apartamento, dezenas de jovens negros pulando um muro para invadir o quintal de uma casa. O pavor ali não se restringe ao crime comum. Ele está ligado ao retorno daqueles que foram historicamente marginalizados pelo processo de “modernização” do país e que, naquele imaginário de classe, passam a ser percebidos como ameaça.
A mesma violência histórica reaparece na sequência em que uma chuva de sangue lava os corpos dos personagens sob a cachoeira, nas terras do antigo engenho. A imagem expressa de maneira quase surrealista a base violenta e escravocrata sobre a qual foram edificadas a prosperidade de certa classe social e a própria modernização urbana do Recife, numa relação que o filme amplia para a formação do Brasil.

Francisco, interpretado por Waldemar José Solha, surge como a personificação dessa continuidade histórica. Antigo senhor de engenho e agora proprietário da maior parte dos imóveis da rua de Setúbal onde a trama se passa, ele carrega para o espaço urbano uma estrutura de poder herdada daquele passado.
Sua autoridade naquele ambiente não deriva apenas do poder econômico. Ela está assentada em uma construção histórica e ideológica que legitima sua posição e permite que continue exercendo influência sobre as pessoas ao redor, mesmo longe das terras do engenho.

Memória como resistência
Por outro lado, o roteiro, também escrito por Kleber Mendonça Filho, surpreende ao construir pacientemente uma subversão dessa dinâmica histórica opressora. A reviravolta final ressignifica o filme, fazendo com que a crônica urbana revele também uma trama de vingança.
Esse movimento passa pela desconstrução da imagem do capataz do engenho, aqui atualizada nos seguranças privados da rua, liderados por Clodoaldo, interpretado por Irandhir Santos, que possuem razões muito específicas para estarem naquele lugar e desempenharem aquela função.
É nesse ponto que Kleber aprofunda um elemento que se tornaria recorrente e central em sua filmografia: o uso da memória não apenas como pano de fundo, mas como ferramenta ativa de resistência política para seus personagens, capaz de impulsioná-los em uma busca por reparação histórica.
Os ruídos da História
O Som ao Redor se mostra, assim, um estudo contundente sobre a formação social brasileira, revelando que o progresso capitalista no país convive com feridas históricas ainda abertas. O passado escravocrata e oligárquico continua presente como um ruído persistente que atravessa nossa vida social.
Ele está inscrito nos espaços que ocupamos, nas relações sociais e de trabalho e nos mecanismos institucionais de controle. Está no racismo estrutural, no conservadorismo e nas ideologias fascistas que continuam encontrando espaço e força na sociedade brasileira.
Ao invés de apresentar a História brasileira como algo encerrado no passado, o filme a revela como uma força ativa que continua moldando o presente. Os muros, as câmeras e os edifícios modernos não representam a superação da velha ordem social. São, na verdade, sua atualização.
Ao final do longa, compreendemos que a verdadeira ameaça que ronda os personagens e o ambiente em que vivem não vem de fora. Ela já estava ali desde o começo, inscrita nos próprios alicerces daquela sociedade.
Os sons que ouvimos ao redor não pertencem apenas ao presente. São os ruídos de uma História que ainda não foi superada, os sons de uma luta de classes que continua estruturando o nosso país.




